O projeto de O estrangeiro começou há dois anos, quando VERA HOLTZ e Guilherme Leme conheceram o dinamarquês Morten Kirkskov, responsável pela adaptação da obra de Albert Camus para o palco, durante um Natal na Dinamarca. “Morten deu a adaptação para Guilherme ler, que se envolveu completamente e, tempos depois, me chamou para dirigir. Eu hesitei porque já tinha me comprometido com a novela de Antonio Calmon, mas acabei aceitando”, lembra Vera Holtz, referindo-se a Três irmãs, novela das 19h da TV Globo.

Na montagem, a iluminação, a cargo de Maneco Quinderé, adquire especial importância, na medida em que simboliza o sol, elevado ao status de personagem da história de Camus, centrada em Meursault, que não encontra explicação ou consolo em sua vida até alcançar a liberdade. A encenação de O estrangeiro celebra o vínculo entre Vera Holtz e Guilherme Leme, amigos há muitos anos, que já trabalharam juntos na novela De corpo e alma, de Gloria Perez, e no espetáculo Medeamaterial, de Heiner Müller, dirigido por Marcio Meirelles. “Eu, Marcio e Guilherme viajamos para a Alemanha em 1994. O Muro de Berlim tinha caído, mas não fazia tanto tempo. Conhecemos Heiner Müller e fotografei muito este encontro, mas, infelizmente, fui roubada em Paris. Até hoje fico triste de não ter esse registro”, constata.

Ao longo dos anos, VERA HOLTZ trabalhou com diretores de personalidade forte, como Antonio Abujamra, Gerald Thomas, Celina Sodré, Amir Haddad, Luiz Antônio Martinez Corrêa, Marcio Aurélio e José Renato. Experiências que possivelmente contribuíram para essa sua empreitada como diretora. “Hoje vejo como os diretores estavam certos. Nós, atores, em especial quando somos jovens, tendemos a achar que temos razão. Mas não contamos com o distanciamento, que é fundamental”, observa. 

VERA também travou parceria com os irmãos Adriano e Fernando Guimarães, de Brasília, participando de interessantíssimos estudos cênicos a partir de obras de Samuel Beckett, como Dias felizes e Rockaby. “Eu tinha feito Pérola durante cinco anos, um trabalho muito ligado a mim, tanto no que diz respeito à evocação de um contexto de cidade do interior como ao registro interpretativo exuberante. Aí Fernando me colocou dentro de uma caixa em Dias felizes. Esperneei. No entanto, aquele aprisionamento me ajudou. Entendi que no palco basta um olhar bem dado. Minha sensibilidade se tornou mais refinada. Comecei a entender a relação com a morte”, afirma Vera.