Comecei a carreira quando tinha uns 16 anos. Meus pais gostavam de teatro. Mas era uma atividade meio marginal. Por isso, minha mãe colocava um pouco de restrição. Meu pai, sem falar muito, me apoiava.

Comecei no rádio, uma grande escola porque lá você aprende a ler, a falar. Acho que o ator sempre deveria dar uma passadinha no rádio.

Eu ouvia umas novelas de rádio-teatro em São Paulo. Havia novelas da manhã até a noite. Ficava encantada. Pensava: “será que sei fazer isto? Acho que sei”. Sonhava com aquilo. Fui, então, fazer um teste na Rádio Kosmos. Para minha alegria e surpresa, fui aprovada no mesmo dia.

Da Kosmos passei para a Tupi/Difusora, também fazendo rádio-teatro. Isso foi em 1946. Foi um começo muito bom. Na Rádio Kosmos, aos domingos, apresentávamos um teatrinho infantil.

Em 1950 a televisão veio para o Brasil. Eu estava na Tupi e ninguém sabia direito o que era a TV. Nós, que éramos da rádio, começamos a trabalhar naquele novo veículo. O pessoal de teatro não gostava muito de TV. No começo, fazíamos teleteatros pequenos, contos.

Eu pedia para o Cassiano Gabus Mendes que me deixasse fazer algo na TV. Pedi tanto que um dia Vida Alves me escalou para um programa chamado Tribunal do Coração. Eram contos que ela adaptava para a TV. Daí em diante vieram TV de vanguarda, TV de comédia, teleteatro às sextas-feiras. O início da televisão foi assim. Tive sorte porque quem se encarregava das adaptações era Walter George Durst. Os diretores também estavam começando. Então, tudo o que está aí hoje, nós é que começamos. Erramos, acertamos. Escolhemos textos certos, outros errados. Às vezes, fizemos papéis que eram para gente, outras vezes, não. Mas o mérito foi da TV Tupi, de São Paulo, que levou grandes autores nos teleteatros.

Na minha época o que valia não era ser bonitinha, mas o talento. A concorrência era grande. Mas a seleção, o critério, era outro. Lógico que a beleza é necessária, mas não fundamental. Fundamental é ter talento, se preparar, estudar, ter escola nas costas, certa cultura.

Hoje existe, na televisão, toda uma tecnologia. Se você erra, para a gravação. É prejudicial, por exemplo, numa cena em que você está com a emoção e é interrompida. O ser humano não é chavinha. Como buscar novamente lá dentro a emoção que estava aqui? Então, o ator precisa ser esperto para não se deixar prejudicar pela tecnologia. No começo, a televisão era ao vivo. Era muito bom porque dá ao ator uma agilidade mental, física. É como no teatro. Se você erra, tem que se virar. O ao vivo foi a grande escola de todos os atores que começaram na década de 50.

O ator tem que batalhar. Deve pedir, voltar dez vezes se for preciso, mostrar que tem valor.

Há atores hoje na televisão que não sabem ler. Quem é bom, fica. Os outros ficam um ano, dois, e depois desaparecem. Não têm estrutura, fôlego e talento para permanecer. Os verdadeiros atores têm uma chama, uma vontade. A televisão pode dar a impressão de que tudo é muito fácil, quando, na verdade, uma carreira é construída com muito trabalho e sacrifício. Não é nada do que aparece nas revistas horrorosas que têm por aí. Caras é uma delas. O retorno financeiro na TV também não é o que sai na revista. Renunciei a muita coisa para estudar, ler, ficar atenta às mudanças. Perdi um monte de coisas relativas à vida das minhas filhas. Você ganha de um lado, perde do outro.

Na televisão não há tempo propriamente para elaborar uma personagem. Alguns dias antes, começamos a receber os capítulos. Não dá tempo de saber exatamente o que o autor quer.

Uma pessoa não acorda de manhã e diz: “eu vou ser atriz”. A gente já nasce. Lógico que você vai maturar, acertar, errar.

Gosto muito do que faço. Gosto de representar, de criar uma personagem, uma coisa viva em que as pessoas acreditem – seja em teatro, cinema, televisão, circo ou rádio.

Ao escolher um trabalho, o texto tem que me dizer alguma coisa. Tem que me dizer que é bom. Quero saber quem vai dirigir.

Estreei com Antunes (Filho) no teatro (na montagem de “Plantão 21”), o que é uma sorte. Ele dizia: “Veja tudo, faça tudo, depois dê uma peneirada para ficar com o que é bom”; Claro que se deve fazer de tudo, mas com cuidado.

Quando fiz “Vereda da Salvação”, com Antunes, chegava cedo ao teatro. Participei de uma preparação, com muitos exercícios.

Quando participei de “Veneza” (montagem dirigida por Miguel Falabella), lidei com o fato de que tive uma pessoa na família que ficou cega. Além disso, assisti a “Perfume de Mulher”, em que Al Pacino fez um cego maravilhoso. Também fiz uma cega na televisão (na novela “Como uma onda”), o que é mais difícil.

Fiz um pouco de circo. Montei, sob a direção de Gabriel Vilella, “Vem buscar-me que ainda sou teu”. Na época, quem me deu aula de malabares foi uma menininha de uns 10, 11 anos. Ela ensinou como nós agradecemos no circo.
Gostei muito de fazer o filme Através da Janela. Jean-Claude (Bernardet) escreveu o roteiro para mim. Tata (Amaral) é uma diretora maravilhosa. Foi um filme difícil de fazer porque eu também estava trabalhando na televisão. Tata conversa com os atores, ensaia antes de começar a filmar.

Eu não gosto de técnica. Há grandes atores que usam maravilhosamente a técnica. Eu não sei trabalhar tecnicamente. Só funciono na base da emoção. Quase morro. A gente se desgasta mais, envelhece mais depressa, mas o prazer é maior.

Acho todos os papéis difíceis. Representar é muito difícil. Começamos no escuro até formar a personagem.

Sou muito crítica. Sempre acho que poderia ter feito melhor. Quero ser a melhor.