| Artista com importância incontestável na história do teatro brasileiro, Chico Buarque norteia Meu caro amigo, espetáculo que mescla história pessoal – a da personagem Norma, fã das músicas do cantor e compositor – e coletiva – relativa aos principais acontecimentos que marcaram a vida brasileira na segunda metade do século XX. A equipe reunida merece crédito: a direção ficou a cargo de Joana Lebreiro, responsável pelos bem-sucedidos musicais Aquarelas de Ari, Ai, que saudades do Lago! e Antonio Maria – A noite é uma criança. O texto é de Felipe Barenco, um dos promissores dramaturgos da nova geração. E em cena está Kelzy Ecard, que se destacou, recentemente, na versão de Dudu Sandroni para Rasga coração, de Oduvaldo Vianna Filho, pela qual ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), e na de João Fonseca para Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes. “Sou uma novata no teatro musical”, assume Kelzy, que já participou de montagens como Broadway Off Broadway. “Mas, em Meu caro amigo, a música é inserida como um elemento fundamental da dramaturgia”, aponta. A atriz traça paralelos entre o texto de Barenco e o de Vianninha. “De certa forma, Rasga coração também passava em revista a história do Brasil”, aponta Kelzy, referindo-se à louvada obra do autor morto prematuramente em 1974, centrada no conflito ideológico travado entre pai e filho. Nos últimos anos, vale lembrar que Flavio Marinho vem apresentando comédias de costumes que conjugam memória particular e pública. Como Norma, sua personagem, Kelzy tem histórias para contar. Chegou ao Rio de Janeiro em 1982 para cursar faculdade de arquitetura, carreira que abraçou durante mais de três anos. Começou a se aproximar do teatro como espectadora. “O primeiro espetáculo que vi aqui foi Quero...”, relembra a atriz, referindo-se à encenação do Teatro Ipanema para o texto de Manuel Puig. Depois enveredou pela cenografia. “Percebi que não era o meu caminho”, conta. Fez vestibular para a Escola Martins Pena, onde se formou, em 1993, numa montagem de Fausto, assinada por Moacir Chaves. “Antigamente, a produção teatral era viabilizada de outra maneira. Havia o empréstimo bancário. Hoje em dia, estreamos desesperados à cata de público. Tornou-se mais difícil correr riscos na experimentação”, compara.
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