Na montagem de formatura, momento em que os alunos deixam a escola para partir para a vida profissional, um desafio se impôs diante das duas turmas de REG 4 da CAL no primeiro semestre de 2009: o trabalho com obras literárias. Crime e castigo, de Fiodor Dostoievski, ganhou versão assinada por Marcelo Mello; Dr. Antonio – Memórias de um rato de hotel, de autor anônimo, supostamente João do Rio, recebeu encenação de César Augusto. Propostas arrojadas, ambas contaram com a adesão dos alunos.

Publicado em 1866, Crime e castigo traz como protagonista Raskólnikov, um jovem estudante, pobre e desesperado, que comete um crime, justificado por ele através de uma teoria: grandes homens, como César ou Napoleão, foram assassinos absolvidos pela história. Este ato desencadeia uma narrativa labiríntica que arrasta o leitor por becos, tabernas e pequenos cômodos, povoados de personagens que lutam para preservar sua dignidade contra as várias formas da tirania. “Eu já tinha lido e relido o livro. Havia, inclusive, tentado adaptá-lo há algum tempo, mas acabei desistindo devido à ausência de uma previsão prática de montagem”, conta Marcelo Mello, que, anteriormente, encenou Os Átridas, reunião de sete tragédias num único texto, com outra turma de formandos da CAL.

De certa maneira, a experiência com Os Átridas influenciou a escolha por Crime e castigo. “Queria permanecer numa cadência parecida”, diz Mello, que adaptou as mais de 600 páginas do romance de Dostoievski para um texto de cerca de 60 páginas. Marcelo Mello utilizou uma parte do processo para aproximar os alunos do universo do autor. “Pedi que preparassem seminários, devidamente divididos por assuntos. Além de Crime e castigo, quis que lessem outras obras de Dostoievski, como Notas do subterrâneo e Noites brancas. Também assistiram a filmes, como A última gargalhada (de F.W. Murnau), já que procurei fazer referência ao expressionismo. A resposta da turma foi, no geral, muito boa”, conta. O diretor destaca a escolha como própria a um espetáculo de formatura. “Acredito que a escola seja um espaço para a experimentação ou para o trabalho com grandes obras da dramaturgia. Procuro levar em consideração ainda os perfis de cada turma. A de Crime e castigo, por exemplo, tinha tendência ao cômico. Então, para eles foi um bom exercício”, constata.

Quando foi convidado para dirigir uma montagem de formatura da CAL, a primeira ideia de César Augusto foi encenar Crime e castigo. Como Marcelo Mello tinha feito a proposta, Augusto partiu para o texto supostamente de João do Rio, um projeto que já tinha lançado à Companhia dos Atores, grupo capitaneado por Enrique Diaz do qual faz parte. Ambientada no Rio de Janeiro dos inebriantes anos do início do século XX, a montagem aborda o mundo dos delitos e das faces mentirosas que o personagem principal, Dr. Antonio, apresenta. “Não se sabe ao certo se o texto é de João do Rio. Afinal, não é assinado. Trata-se, na verdade, de uma biografia travestida de autobiografia escrita por alguém que não teve coragem de assinar. Entretanto, há trechos do livro presentes em artigos de João do Rio”, conta César Augusto.

Responsável pela adaptação para o palco, ao lado da dramaturga Renata Mizrahy, Augusto já tinha participado de uma experiência de transposição literária em Meu destino é pecar, montagem da Cia. dos Atores dirigida por Gilberto Gawronski. “O processo de Memórias de um rato fez com que colocasse minhas referências à prova. Não quis ser subserviente ao livro. Detive-me em como buscar outros recursos para além da mera subdivisão das falas entre os atores”, conta. César Augusto procurou aproveitar as habilidades de cada ator. “Um gosta de cantar, o outro, de dançar; um recai mais para o registro cômico, o outro, para o dramático. Procurei ver como cada um desses predicados se encaixaria na encenação. Construímos um vocabulário comum numa montagem que valoriza mais o coletivo do que atuações individuais”, ressalta. Quem acompanha a trajetória da Cia. dos Atores talvez encontre pontos e contato com Memórias de um rato. “Como em Ensaio. Hamlet, os atores assistem às cenas uns dos outros. E as cenas são realizadas no momento presente, de acordo com quem faz e com quem observa. Não podem ser tão-somente frases soltas, interpretadas individualmente por cada ator”, assinala.