| Um homem é informado de que tem pouco tempo de vida e tenta se despedir daqueles que lhe são caros. Não consegue, apesar das tentativas, adentrar nesse assunto tão delicado, nessa notícia que ele mesmo ainda está digerindo, e, através do outro, percebê-lo, mensurá-lo, elaborá-lo. Esbarra nas defesas dos interlocutores, que variam, indo desde a demência completa à total incapacidade de se encarar a morte como algo possível nesse caso. Um casal em vias de separar-se enfrenta a dura e necessária realidade de enxergar o outro como indivíduo. O desenvolvimento desse conflito por si só já tornaria In on It um espetáculo interessante nos dias de hoje, em que a exacerbação do individualismo e suas conseqüências nos fazem buscar, encurralados, outros caminhos. Porém, o texto do dramaturgo canadense Daniel MacIvor não se limita a contar uma história linear, com início, meio e fim. Ele entremeia essas narrativas com apartes que nos levam à situação metalingüística da peça sendo escrita dentro da peça, levando para o palco, assim, as suas experiências cênicas com o seu grupo teatral. --- Você vai começar assim o espetáculo? --- um dos “atores-autores” pergunta. --- Espetáculo não. É uma peça. --- o outro responde. E assim, cena por cena do homem atormentado com a proximidade da morte, é entrecortada pelos questionamentos e buscas do fazer teatral, dessa realidade que é dar vida a personagens, contar, e recontar histórias, perspectiva essa que é sempre provocada pelo jogo entre dois. A “bola” que os dois atores jogam um para o outro, do início ao fim do espetáculo, é recebida e devolvida, constantemente pela platéia, e a impressão que ambos elaboram, é exprimida de forma lírica, poética, sensível. Cada um, à sua maneira, vai imprimindo a sua identidade ali em sua forma de fazer, e de trocar, sempre generosamente, com o outro. Em um cenário modesto, formado por poucos objetos cênicos, como, principalmente, um casaco, dá-se vida a todos os personagens, aos autores que os “escrevem”, aos atores que os “recontam”, em uma atmosfera que, sem esquecer o lirismo, dá a impressão a nós, espectadores, de que aquilo está acontecendo pela primeira vez, sem a mecanicidade que a repetição das temporadas muitas vezes nos traz. Outra sensação que não existe nem passa perto do que acontece em In on it é a de que os méritos da encenação ultrapassam o dos atores, encobrindo até eventuais falhas, atingindo um espetáculo por si só. Não. Nesse caso, a direção de Enrique Diaz é precisa, concisa, sem excessos, sem inutilidades. Favorece o trabalho minucioso de Emilio de Melo e Fernando Eiras para chegarem a uma naturalidade de quem está vivendo aquilo pela primeira vez, está trocando aquela emoção com o público como na estréia, e de quem trabalhou nas possibilidades do texto com árdua dedicação para perceber que ele não se encerra ali, não se encerrará nunca: sua construção será infinda, virá das inferências do jogo teatral, das respostas do outro, da troca com o público. De acordo com a tradutora do texto, Daniele Ávila, In on it indica uma espécie de envolvimento que sugere uma responsabilidade, uma participação. Envolvimento de um homem com sua família, seus amigos, seus vizinhos. Envolvimento de um paciente que vai morrer com o médico que lhe dá a notícia. Envolvimento de um velho senil com as informações que lhe escapam. Envolvimento de um casal que se perde ali mesmo, no convívio, e de outro que se perde pela falta dele. Envolvimento de filho e pai, imersos na multidão de responsabilidades que o mundo de hoje impõe. E de filhos que não são filhos, pais que não são propriamente pais, responsabilidades tácitas e não impostas, conflitos de um mundo onde os papéis não são mais tão estanques, nem tão óbvios assim. Enfim, envolvimentos e a responsabilidade que deles desabrocha, responsabilidade esta que acaba sempre tendo um ponto de referência: o ser humano com todos os seus embates e contradições, que termina por buscar a sua identidade no espelho que é o outro, a sociedade em que vive. Nisso, ainda, o texto de Daniel MacIvor é mais significativo ainda: quando nos perdemos de nós, buscamos referência, também no outro. Quando lembramos dele, percebemos a quantidade de responsabilidade que deixamos para trás, esquecidas, na busca, exatamente, de nós mesmos. Quando uma peça de teatro é escrita, montada, ensaiada, apresentada, esses valores não podem ser esquecidos. E nisso, Enrique Diaz, Fernando Eiras e Emilio de Melo, realizam a maior tradução metalingüística da peça que se propuseram a montar: realizam-na entre si, de mãos dadas, para o público, com o público, para, no outro, receberem, refletida, a imagem de si mesmos, do teatro, da vida.
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