Shakespeare antes, Aderbal agora

Visitas aos Clássicos da herança européia outorgada a nós é sempre uma tarefa delicada e, quase sempre, perigosa e necessária.  As obras assim denominadas “clássicas” carregam, além de outros cânones, a eternidade de questões universais inerentes ao desenvolvimento do homem durante sua recente conscientização sobre sua existência neste planeta que ele chama de Terra.  Por isso atravessam séculos e continentes, interpretações e traduções, resultando em uma série de releituras e experimentações que nunca se repetirão. 

Porém, entre milhares de tentativas cênicas de se atingir aquilo que a princípio são palavras de ação em repouso, existem aquelas que se diferenciam por uma ousadia mais adequada ao seu contexto artístico atual e ao seu dia a dia presente, procurando uma adaptação que figure uma nova roupagem, com alguns cortes e modificações necessárias ou propícias por sua contemporaneidade.
           
Assim, Aderbal Freire Filho nos apresenta mais uma vez a sua marca nesta encenação do clássico “Hamlet” de William Shakespeare, tendo o visceral ator Wagner Moura como o Príncipe da Dinamarca.  Com o palco desnudado por sua rotunda e pernas laterais suspensas, onde se pode ver a coxia e o fundo do teatro, o harmonioso elenco de atores que parecem, por vezes, estarem em um ensaio, desenvolve o jogo teatral através de interpretações com tendências realistas, onde a linguagem aproxima-se dos dias atuais e a escrita shakesperiana, conseqüentemente, adquire uma fluidez que se coaduna com o tempo e as ações dos espectadores de agora. 

Através dessas interpretações, este Hamlet atinge uma vivacidade cênica carregada de emoção e tensão, e nos momentos de pausa entre os diálogos consegue um efeito grandioso de suspense, intensificando o clima geral da tragédia.  Com trocas de diálogos dinâmicos e uma direção que permite aos atores ocuparem o seu espaço cênico de maneira mais livre, onde não se vê o rigor das marcas do diretor, o rebuscado texto original em versos adquire uma freqüência mais despojada (reforçada por um figurino básico e leve, de um cotidiano urbano), lembrando a urgência e a conseqüente pressa das metrópoles, apresentando uma linguagem mais reta e metralhada, distanciando-se do modo arcaico da impostação vocal mais arrastada e versada que era acompanhada de uma movimentação cênica mais amarrada, conforme se costumava montar há tempos. 

Além desta leitura que procura adaptar o texto de ontem para o teatro de hoje, Hamlet de Aderbal consegue estabelecer uma visão multifacetada, em close, de registro, ampliada e projetada através da utilização das possibilidades do audiovisual que geram imagens ao vivo para o espectador, revelando novos planos para o mesmo momento cênico, enriquecendo o público de possibilidades dramáticas simultâneas e fazendo-o transitar por diferentes planos, mídias, linguagens e cenas. 

Em meio a um cenário de arquibancadas, praticáveis móveis que reconstroem constantemente o espaço e poucas peças de mobília essenciais, as quais possuem um forte simbolismo nas circunstâncias cênicas, a platéia é abraçada pelo talentosíssimo elenco de atores formado por Wagner Moura, Tonico Pereira, Caio Junqueira, entre outros, e é arrastada pela lamacenta trama da tragédia, que trata do dilema da vingança do Príncipe Hamlet em conseqüência da verdade descoberta em relação ao assassinato de seu pai, verdade esta que por fim resta nas mãos do íntegro Horácio, incumbido, ao final, de anunciá-la para toda a História e nos proporcionar conhecer esta tragédia dinamarquesa retratada por William Shakespeare e que chega até os nossos palcos de hoje. 

Mexer em uma obra clássica é como revolver o túmulo de um sacerdote sagrado. É perigoso, pois pode-se descobrir as maldições eternas, universais e indissolúveis do espírito. É necessário, pois algumas almas já merecem se libertar.  E é maravilhoso, pois tudo que ressuscita, que se recria, é da ordem do divino.  E deve ser louvado.