Uma promissora novata nos musicais
Depois de Gota d’água, Kelzy Ecard ganha elogios pelo monólogo Meu caro amigo, no qual interpreta uma fã de Chico Buarque

por Daniel Schenker Wajnberg

Artista com importância incontestável na história do teatro brasileiro, Chico Buarque norteia Meu caro amigo, espetáculo que mescla história pessoal – a da personagem Norma, fã das músicas do cantor e compositor – e coletiva – relativa aos principais acontecimentos que marcaram a vida brasileira na segunda metade do século XX.

A equipe reunida merece crédito: a direção ficou a cargo de Joana Lebreiro, responsável pelos bem-sucedidos musicais Aquarelas de Ari, Ai, que saudades do Lago! e Antonio Maria – A noite é uma criança. O texto é de Felipe Barenco, um dos promissores dramaturgos da nova geração. E em cena está Kelzy Ecard, que se destacou, recentemente, na versão de Dudu Sandroni para Rasga coração, de Oduvaldo Vianna Filho, pela qual ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante da Associação de Produtores de Teatro do Rio de Janeiro (APTR), e na de João Fonseca para Gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes.

“Sou uma novata no teatro musical”, assume Kelzy, que já participou de montagens como Broadway Off Broadway. “Mas, em Meu caro amigo, a música é inserida como um elemento fundamental da dramaturgia”, aponta. A atriz traça paralelos entre o texto de Barenco e o de Vianninha. “De certa forma, Rasga coração também passava em revista a história do Brasil”, aponta Kelzy, referindo-se à louvada obra do autor morto prematuramente em 1974, centrada no conflito ideológico travado entre pai e filho. Nos últimos anos, vale lembrar que Flavio Marinho vem apresentando comédias de costumes que conjugam memória particular e pública.

Como Norma, sua personagem, Kelzy tem histórias para contar. Chegou ao Rio de Janeiro em 1982 para cursar faculdade de arquitetura, carreira que abraçou durante mais de três anos. Começou a se aproximar do teatro como espectadora. “O primeiro espetáculo que vi aqui foi Quero...”, relembra a atriz, referindo-se à encenação do Teatro Ipanema para o texto de Manuel Puig. Depois enveredou pela cenografia. “Percebi que não era o meu caminho”, conta. Fez vestibular para a Escola Martins Pena, onde se formou, em 1993, numa montagem de Fausto, assinada por Moacir Chaves. “Antigamente, a produção teatral era viabilizada de outra maneira. Havia o empréstimo bancário. Hoje em dia, estreamos desesperados à cata de público. Tornou-se mais difícil correr riscos na experimentação”, compara.

 

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