| Pouco depois de “Warum, Warum” e de "Fragments", o público brasileiro teve a oportunidade de conferir outro novo trabalho de Peter Brook: "O grande inquisidor", retirado do livro "Os irmãos Karamázov", de Dostoievski. O espetáculo foi uma das atrações principais do 15º Porto Alegre em Cena, que já recebeu montagens de Brook, como "Le costume" e "Dias felizes". Na obra de Dostoievski, "O grande inquisidor" é um diálogo sobre fé travado entre dois dos irmãos Karamázov, Ivan e Aliocha. O primeiro relata ao segundo a respeito do confronto entre Jesus e a figura do grande inquisidor, centrado, entre outras questões, na dificuldade do ser humano em lidar com o livre arbítrio, com a própria liberdade, e em como o pão, enquanto elemento básico da sobrevivência, pode se converter em instrumento de manipulação. "Estou envolvido há muito tempo com `O grande inquisidor'. Venho descobrindo novas possibilidades interpretativas para o texto", afirma o ator Bruce Myers - em entrevista no camarim do teatro, pouco antes do início da apresentação - que fez a primeira leitura do texto há três anos. Myers interpreta o inquisidor e o narrador; a figura de Jesus ficou a cargo de um ator gaúcho, que permanece sentado olhando para o inquisidor durante os 55 minutos de duração. Myers trabalha há cerca de 40 anos com Peter Brook no Centro Internacional de Pesquisa Teatral, que vem reunindo, no decorrer do tempo, atores de diferentes nacionalidades, como Yoshi Oida, Glenda Jackson, Sotigui Kouyaté e Maurice Benichou. Viajou para a África com a companhia, percorrendo parte do continente de aldeia em aldeia, uma experiência que reafirmou a figura do ator como elemento primordial do acontecimento teatral. Afinal, Brook e os atores não tinham como carregar cenários e figurinos durante a travessia. Um tapete delimitava a área de apresentação; a iluminação resumia-se à luz do sol. Era a prova cabal de que o teatro precisa de pouco para acontecer, perspectiva que conecta Brook ao Teatro Pobre, conforme formulado por Jerzy Grotowski. Não por acaso, o diretor escreveu um texto sobre Grotowski no livro "Em busca de um Teatro Pobre". "A África representou uma experiência muito importante, uma aventura maravilhosa, para mim, que vim da Royal Academy of Dramatic Art e da Royal Shakespeare Company. Lá trabalhamos com improvisações partindo do nada. Tínhamos que procurar não fazer qualquer tipo de imposição às pessoas que não conhecíamos. Afinal, não estávamos familiarizados com seus costumes e tradições", sublinha Bruce Myers, que, ao longo dos anos, deparou-se com culturas diversas em países como Índia, Japão, Turquia, Síria e Egito. Na África, os atores de Brook não falavam a mesma língua que os espectadores, o que os levava a travar uma parceria para além do plano verbal. Um desafio que certamente ajudou Brook a conceituar o teatro como espaço vazio, onde o ator exerce o seu trabalho no sentido de estimular a imaginação do espectador. "Eu nunca estive tão livre quanto com Peter Brook", sintetiza Bruce Myers, anunciando seu próximo projeto com o diretor - a encenação dos "Sonetos", de Shakespeare - que também planeja montagem de "A flauta mágica", de Mozart.
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