MATHEUS NACHTERGAELE mergulha no universo algo messiânico de uma comunidade ribeirinha do Alto Amazonas conduzida por Santinho. Trata-se de "A FESTA DA MENINA MORTA", primeiro longa-metragem dirigido por Nachtergaele, que foi exibido no Festival de Cannes e saiu do último Festival de Cinema de Gramado com seis Kikitos - melhor ator (para Daniel de Oliveira), prêmio do júri, prêmio da crítica, júri popular, fotografia (Lula Carvalho) e trilha sonora (Matheus Nachtergaele).

O filme, selecionado para o Festival do Rio, é um novo passo na carreira de Nachtergaele, ator do Teatro da Vertigem - grupo dirigido por Antonio Araujo, no qual participou de montagens integrantes da trilogia bíblica, como "Paraíso perdido" e "O livro de Jó" - que passou a trabalhar no cinema e na televisão sem se distanciar do teatro, a julgar por sua presença em espetáculos como "A controvérsia" e "Woyzeck".

O VIGOR MESSIÂNICO DE "VEREDA DA SALVAÇÃO", PEÇA DE JORGE ANDRADE, FOI UMA INFLUÊNCIA NA CRIAÇÃO DO ROTEIRO DE "A FESTA DA MENINA MORTA"?
MATHEUS NACHTERGAELE - A referência procede. Eu sempre achei que é um filme sobre seita. Domingos Oliveira me disse que é um romance entre pai (vivido por Jackson Antunes) e filho (Santinho, interpretado por Daniel de Oliveira). O caráter messiânico está no filme, mas Santinho é uma figura mais aberta, menos monocromática, do que o protagonista de "Vereda da salvação".

FALE UM POUCO SOBRE A LONGA SEQÜÊNCIA ATRAVESSADA PELO SOM DO SACRIFÍCIO DE UM PORCO. VOCÊ PARECE FORMAR UMA ESPESSURA ENTRE ESTE SOM AGONIANTE E A CENA QUE SE DESENROLA DIANTE DO ESPECTADOR.
Para mim, o som do porco é o da agonia de Tadeu (Juliano Cazarré), que toma coragem de dizer para Santinho que precisa se libertar daquele sistema, deixar de fazer parte da festa da menina morta. Santinho pergunta: "Esse porco não vai morrer?". Ele morre e Tardeu é novamente engolido. Além disso, é uma memória de infância que tenho. Fui criado um pouco na roça, num sítio do meu avô. A morte de um porco é muito exasperante. Se a pessoa não for boa de matar e boa de coração, o porco agoniza durante muito tempo.

A FIGURA DO PORCO, DA CARCAÇA MERGULHADA NA CENA SEGUINTE, REMETE A UMA DISCUSSÃO SOBRE INTERIORIDADE?
O filme funciona numa região de ambigüidade: carcaça/víscera, crença/descrença, heterossexualidade/homossexualidade, bater/beijar, amor/ódio, sobreviver/morrer. Vimos um jacaré morto, decapitado, com a barriga descarnada, comida por varejeiras. E a imagem é bonita. Porque, apesar de tudo, a morte também é repousante. Temos um saudável horror à morte, mas um pressentimento de que ali há descanso.

A EXPERIÊNCIA DE "A FESTA DA MENINA MORTA" ESTÁ MUITO LIGADA AO SEU PROCESSO NO TEATRO DA VERTIGEM, NÃO?
Claro. No Vertigem, lidávamos com o sagrado e o profano. Fui da primeira formação do grupo. Lembro do dia em que escolhemos o nome. Éramos norteados por perguntas como: "Por que cremos?", "Por que acreditamos?" Jó pergunta: "Que Deus é esse?", "Que vida é essa?". Pede para falar com Deus. E consegue.

UMA DAS ÚLTIMAS PASSAGENS DE "A FESTA DA MENINA MORTA", AQUELA EM QUE SANTINHO SE JOGA NO RIO, LEMBRA UM POUCO A SUA QUEDA DE COSTAS, AMPARADO POR TODO O GRUPO...
Foi numa cena de "Paraíso perdido". Ali ainda era uma tese. Em "O livro de Jó", surgiu de maneira mais elaborada. Os personagens de "A festa da menina morta" caem. A gravidade é a própria pulsão de morte da terra. Por isso, são impressionantes aqueles que não cedem rápido, como Kazuo Ohno e Dercy Gonçalves.

EM RELAÇÃO AO REGISTRO DE ATUAÇÃO ADOTADO PARA O ELENCO, VOCÊ INVESTE NUMA ESPÉCIE DE APAGAMENTO, NO SENTIDO DE FAZER COM QUE O ESPECTADOR NÃO VEJA O ATOR REPRESENTANDO...
Levei os atores para as locações um mês antes das filmagens. No final, eles ficaram exauridos. Foi no limite. Eu misturei os atores com as pessoas da região. Ministrei os ensaios, com butoh e aula de voz. Tateamos as cenas, sem nunca resolvê-las na hora. Resolvíamos no set. Nos ensaios, rondávamos o abismo. Foi algo que aprendi com Walter Salles.

COMO E QUANDO SURGIU O PROJETO DE "A FESTA DA MENINA MORTA"?
Quando estive na Paraíba, em 1999, numa festa em que as pessoas adoravam o vestido de uma menina desaparecida. Fiquei bem irritado e triste. Era uma espécie de Santo Sudário tupiniquim. A menina nunca foi achada. Tadeu passa o filme dizendo que tudo aquilo é furado, mas vai lá, apóia, está condenado a passar por isto.

E EM RELAÇÃO AO LUGAR DO DIRETOR? DESEJA CONTINUAR?
Agora tenho vontade de me distanciar um pouco deste lugar e voltar a ele quando sentir urgência.