| Tenho 30 anos de carreira. Faço parte de uma geração de atores que ainda teve uma formação muito defasada, com poucas oportunidades. Em São Paulo, de onde vim, havia apenas uma escola de teatro – a Escola de Arte Dramática (EAD). Muitos atores passaram pela EAD – Ney Latarroca, Paulo Betti, Eliane Giardini. Eu cursei a Escola Macunaíma, que era um curso bem livre, na base da exposição. Por isso, quando vínhamos para o Rio e acompanhávamos a movimentação em torno da CAL, éramos tomados por uma grande curiosidade. Os grandes nomes começaram a despontar na escola: uma palestra com Antunes Filho, a figura do Yan Michalski norteando todo o projeto. Yan era um crítico muito gentil. A figura dele atraía, cultivava. Surgiu uma aura de profundidade em torno da CAL e eu migrei de São Paulo para o Rio. Mas não tive essa formação. Senti inveja. Para mim foi tudo sofrido, com insegurança. Ouvi muito não. Havia a luta pela sobrevivência. Fernanda (Montenegro) foi ver a peça que eu estava fazendo em São Paulo – “Feliz Ano Velho”. Todos do elenco sabiam que ela estava ali. Isto é péssimo para mim porque me deixa muito ansioso. Lembro dela na platéia e de mim travado em cena. No elenco também estavam Lilia Cabral e Denise Del Vecchio. No final, sabia que a apresentação não tinha sido boa naquele dia. Ela passou por mim uma vez, depois de novo e de novo. Quando parou, disse: “Desista. Mas, mesmo assim, se quiser continuar, seja bem-vindo”. Eu comecei a acreditar. Percebi que valeria a pena. Ouvi outra frase muito significativa quando vim para a TV. Cheguei completamente travado. Jorge Fernando, que conheci na época dos Dzi Croquettes, disse: “Menino, relaxa! Está todo mundo no mesmo barco que você, aprendendo a fazer as coisas. Na vida só existe aquilo que a gente inventa e o grande desafio é inventar a si mesmo. Isto implica em interferir decisivamente na construção do seu destino. Você se torna responsável pelas suas escolhas”. Acreditei naquilo e resolvi me inventar, acreditar em mim, apesar de todas as dificuldades. O ator sempre pensa: “Será que vão gostar de mim?” É importante pensar de que maneira o teatro nos quer. Há quem comece como ator e se transforme em produtor ou abrace outra função. Desistir – ou pensar em desistir – é algo que vai estar sempre presente na vida de vocês. Há sempre milhões de motivos para desistir. Mas é um privilégio se fazer bem-vindo na profissão. Permanecer e descobrir os porquês. Gostar de si mesmo. Eu sou, mas também não sou. Estou fingindo que sou. Vivo a intensidade do outro, sendo eu; mas aquela intensidade me enriquece, desafia, enlouquece. O privilégio de ser tantos em um ou de ser um em tantos. Por isto, com o tempo o ator vai ganhando uma aura, uma beleza diferente, uma juventude. O teatro me salvou, me diferenciou. Depois de 30 anos de carreira, me sinto um privilegiado. O artista nunca tem um projeto muito para frente. Nós nunca sabemos se seremos aceitos. Mesmo que façamos uma peça de sucesso, nada garante que estaremos na seguinte. Quando entrei na Globo, comecei a gravar e depois do segundo dia alguém começou a me chamar atenção. Olhei para trás, com vergonha. Era (Miguel) Falabella, um piadista. Disse: “Você não vai dar certo aqui, não. Baixinho, pobre e paulista”. Falava para mim mesmo: “Sou baixinho, mas sou de circo”. Muitos dariam tudo para experimentar o que é o circo para um artista. Comecei no teatro. Com poucos anos de carreira tinha ganhado diversos prêmios. Trabalhei com Ulysses Cruz, Cleyde Yáconis, Laura Cardoso, Yara Amaral, Nathalia Timberg, Antonio Abujamra, Ileana Koazinski, Antonio Calloni. Fazia “A Cerimônia do Adeus”, espetáculo de muito sucesso, primeiro no Teatro dos Quatro, no Rio, depois em São Paulo. Chegamos a ir para a Europa comemorar o bicentenário da Revolução Francesa. E eu anunciei que iria parar. Soou como uma traição aos deuses do teatro. Porque “A Cerimônia...” foi um divisor de águas no teatro brasileiro ao juntar Mauro Rasi – um dramaturgo absolutamente inquieto, que morreu cedo – com Ulysses Cruz – diretor enfant terrible. Quis parar porque a sede que eu tinha de pisar no picadeiro do circo era inadiável. Não tinha mais tempo a perder. O que me desafia, encanta, me leva a desobedecer todos e até a mim mesmo é dar um mergulho no escuro e exercer essa paixão pelo circo que sinto desde criança. Somos muito movidos pelo que nos norteia na primeira infância. O circo faz parte desta memória. Mas o que me motivou foi a vontade de me aproximar e dominar um universo que é totalmente desconhecido para o ator. O circo não é o palco do ator – apesar de haver no Brasil uma tradição forte de circo-teatro. Mas quando falamos em circo não pensamos em circo-teatro. Não lembro de um ator de circo-teatro que tenha vingado. Ou melhor. Há um: Dedé Santana. A primeira novela que fiz na Globo foi “Vereda Tropical”. Ganhei prêmio revelação. Falei para Daniel Filho que a Globo deveria aproveitar o sucesso das suas novelas e incentivar uma atividade artística que está em princípio de decadência – o circo. Ele disse que não cabia a mim sugerir, mas esperar o convite para fazer algum personagem. Aí eu disse: “Mas, justo você, Daniel, que é de circo, me fala isso...”. Duas ou três semanas depois ele me ligou para falar sobre uma novela que teria um personagem circense: “Cambalacho”. No decorrer da novela, o circo cresceu na história e Eduardo Figueira, produtor, pediu que eu fosse atrás de um circo de verdade porque ele não teria tempo de produzir um para a ficção. Descobri um circo que estava começando em São Paulo. Acabei trazendo para a novela. Foi um sucesso. As pessoas passaram a querer ver o personagem da novela no circo. Durante “Cambalacho” aprendi trapézio e comecei a excursionar com esse circo. Percebi que para permanecer no circo precisaria mudar a estética circense. Afinal, era um espetáculo meio canastrão. Comecei a ficar com vergonha de me apresentar. E as idéias que eu levava eram refutadas. Diziam que ficaria caro. Eu sugeria trazer Jorge Fernando para dirigir, Ney Matogrosso para fazer a luz. Então, percebi que eu teria que fazer um circo. Fui empreendedor, ponta de lança. Assumi as responsabilidades, as dívidas. Fiquei muito sozinho. Experimentei coisas fortíssimas, que me amadureceram bastante, mas chorei muitas noites sozinho em quarto de hotel. A realidade me bateu muitas vezes na cara. Mas levei o circo para o Rock’n Rio, entrei com ele no Maracanã, no jogo Brasil-Uruguai. Nós nos apresentamos numa aldeia indígena. Os índios não esboçaram nenhuma reação. Só deslumbramento. Como forma de agradecimento, apresentaram-se para nós. São momentos que me dão essa distinção. Tenho pelo circo profunda gratidão, apesar de muita dor. Sempre que você começa algo, paga um preço alto – o da inexperiência. E eu ainda fiquei viúvo, com três filhos para criar, quando minha mulher morreu num acidente de carro em frente de casa. Estou falando sobre a solidão porque ela será companheira de vocês. Há duas formas de lidar com a solidão: uma é lamentá-la, pensar que ninguém o compreende; a outra é perceber o quanto é bem-vinda, o deixa forte. Até porque somos sozinhos mesmo. E o ator, particularmente, tem uma viagem solitária. Há aqueles que se perdem em 557 relacionamentos, no álcool e nas drogas que fizeram parte da classe artística durante décadas; outros encaram de maneira saudável. Eu não poderia dizer que o meu circo parou depois de externar tanta disponibilidade. O circo não pára. Não tem Natal, Reveillon, feriado. Todo dia é dia de circo. Paguei um preço de solidão e de desvio de foco. Mas é um patrimônio que adquiri. Houve uma geração que veio sem eira, nem beira, dando a cara à tapa, sem perspectivas de retorno financeiro: Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Ítalo Rossi, Sergio Britto, Cleyde Yáconis, Raul Cortez. Fiquei com medo ao ver Raul como Salieri em “Amadeus”, no teatro. A minha geração de atores – Edson Celulari, Deborah Bloch, Regina Casé, Diogo Vilela, Miguel Falabella, Pedro Cardoso – vem capitaneando projetos belíssimos no teatro. Eu, ao mesmo tempo, venho tomando conta do circo. Dizem: “Ah, o teatro está em crise”, “Ah, o Rio de Janeiro...”. Que besteira! O Rio de Janeiro é a cidade mais importante da América Latina. E se o teatro está em crise, ótimo, porque irá suscitar reflexão. Você olha para Matheus Nachtergaele e não dá nada. Em cena, é um mostro. Vi-o em “Woyzeck” e “A Controvérsia”. Depois fizemos a novela “América”. Não se ilude com nada, não se envaidece com nada. Mas o teatro brasileiro foi puxado pelas atrizes e não pelos atores, ao contrário do cinema hollywoodiano. Cacilda Becker, Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Renata Sorrah, Nathalia Timberg, que foi Simone de Beauvoir em “A Cerimônia do Adeus” – Cleyde Yáconis também. Procópio Ferreira é o nosso Cantinflas. A popularidade dele era tão grande que bastava anunciar um espetáculo que as pessoas iam. Paulo Autran me comparou a ele, perguntando se eu tinha noção do ator popular que havia me tornado. Vou filmar o circo. Em 2010 completarei 25 anos de circo. Acabei me transformando numa espécie de embaixador do circo. Afinal, levei o circo para a mídia, fui jurado de vários festivais pelo mundo. Na Europa, o circo é visto como espetáculo erudito. Aqui é visto como segmento artístico menor. Quanto mais preparado for o ator, melhor. Os atores admiráveis são os que têm infinitas possibilidades para emprestar aos personagens. O ator é um contador de histórias. Se tiver consciência disto, não vai cair na cilada da nossa carreira, que é a vaidade. O ator deve canalizar a verdade por meio da técnica. Assim atingirá a liberdade que busca. São raros os atores que estão dispostos a errar para acertar, a se entregar verdadeiramente e a provocar em quem assiste uma profunda reflexão sobre o que estamos fazendo aqui. É importante que vocês descubram em vocês mesmos a liberdade de não se enquadrar no que está aí, sem medo do abismo, Mas só é possível com técnica e estudo. Liberdade não é fruto apenas de intuição. A autoridade plena e completa só brota depois de sofrimento, técnica e estudo. Eu interpretei quatro personagens com deficiência: Marcelo Rubens Paiva, na montagem de “Feliz Ano Velho”, Tomás, surdo-mudo, Tonho da Lua, autista, e Jatobá, cego – respectivamente, nas novelas “Sexo dos Anjos”, “Mulheres de Areia” e “América”. Foram personagens que me pontuaram no teatro e na TV e achei que estava na hora de retribuir. Fiz, então, um espetáculo de circo, chamado “Somos todos brasileiros”, feito por artistas com deficiência. Fomos indicados para evento oficial da ONU em comemoração aos 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O talento supera qualquer limite. É muito difícil deitar e levantar sem fazer uma oração. |