Depois das três montagens de formatura do primeiro semestre de 2008 (Leonce e Lena, de Georg Buchner, com direção de Thierry Tremouroux, no Teatro Glaucio Gill, Machado de Assis esta Noite, adaptação de José Antônio de Souza, direção de Tonico Pereira e Marina Salomon, no Solar de Botafogo, e O Quadro das Maravilhas, adaptação a partir de El Retablo de las Maravillas, de Miguel de Cervantes e direção Roberto Innocente, no Teatro SESI), quando lançou 51 novos atores, a CAL apresenta ao mercado mais 87 neste segundo semestre através de cinco espetáculos. 

Por mais que a escola procure estabelecer um programa de ensino comum às diversas turmas que integram os dois anos e meio de formação profissional, é inevitável que os alunos realizem viagens diferentes de acordo com as escolhas de cada professor/diretor, sintonizados com a coordenação e direção da CAL. É o que fica evidente nas opções que norteiam as montagens de formatura, como nas desse segundo semestre de 2008.

Vejamos: Ole Erdman assinou M., Em Busca de um Assassino, a partir de notada inspiração no célebre M., O Vampiro de Dusseldorf, primeiro filme falado do austríaco Fritz Lang, marco do expressionismo alemão, centrado no desaparecimento da menina Elsie Beckmann em meio a um período tomado por assassinatos diversos. Realizada em 1931, a produção foi inspirada na história real de Peter Kürten, assassino de crianças em Dusseldorf, poucos anos antes, em 1925, e norteou a concepção da montagem que tomou conta do Teatro I do Sesc Tijuca.

Ivan Sugahara, diretor da Cia. Os Dezequilibrados, conhecida pela realização de montagens em espaços não-convencionais, fez no Teatro Sesi  Deixa eu Brincar de ser Feliz, Deixa eu Pintar o meu Nariz, apropriação de  Cyrano de Bergerac, peça de Edmond Rostand que estreou com sucesso em 1897, no Théâtre de La Porte-Saint-Martin, em Paris, e interpretada pela diva Sarah Bernhardt em Londres, em 1901.

Silvia Pasello, atriz italiana integrante da Fondazione Pontedera Teatro, conduzida por Roberto Bacci, escolheu O Castelo, livro de Franz Kafka, de 1926, que, junto com outras duas obras do escritor (A Metamorfose e O Processo), constituem o que se denomina chamar de pesadelo kafkaniano ao trazerem protagonistas enredados em teias burocráticas. O resultado, apresentado no Clube Hebraica, propôs uma interessante relação espacial palco-platéia.

Adriano Garib, ator integrante da Cia. de Teatro Autônomo, de Jefferson Miranda, voltou-se ao bicheiro de Madureira, conhecido como Boca de Ouro, que tomou conta do Centro Cultural Solar de Botafogo. Trata-se de uma das mais importantes tragédias cariocas de Nelson Rodrigues, polêmico dramaturgo brasileiro que continua ocupando posto de excelência nos palcos.

E Marcelo Mello, professor da CAL que estréia na função de diretor de uma montagem de formatura, assumiu a ambição e apresenta Os Átridas, novamente no Teatro I do Sesc Tijuca, reunião de tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. Uma investida importante para os alunos de teatro de uma cidade como o Rio de Janeiro, marcada pela constância cada vez menor de encenações de tragédias gregas, valendo evocar a importância do grupo Mergulho no Trágico, que vigorou na cidade entre 1987 e 1992, sob a direção de José da Costa.

Não seria justo mencionar “apenas” os diretores responsáveis por capitanear os espetáculos sem deixar de chamar atenção para a equipe que contribui de modo decisivo para viabilizá-los. Em cada montagem, professores da escola se engajam, além de uma gama de profissionais composta por iluminadores, cenógrafos, figurinistas e músicos.

Mesmo diante da evidente diversidade, é possível perceber um fator comum entre algumas das encenações: a determinação dos diretores em realizar apropriações de determinados textos, versões ou adaptações livres, como mais freqüentemente se costuma chamar. Talvez seja reflexo de uma saudável dose de inquietude, elemento fundamental para alunos em fase de término da trajetória escolar e ingresso na vida profissional.