Diretor do ODIN TEATRET, que fundou em 1964, EUGENIO BARBA vem desenvolvendo conexão com o Brasil ao longo dos anos. O vínculo com o país começou através do contato com Luiz Otávio Burnier, do grupo Lume, sediado em Campinas, na década de 80. Pouco tempo depois, o Odin se apresentou no Festival Internacional de Londrina (Filo), para onde voltou, recentemente, com "Sonhos de Andersen", montagem que estreou em 2004 e já passou pelo Rio de Janeiro em meio a um festival da companhia, composto por outras encenações como "Salt" e "Itsi bitsi".

Em "Sonhos de Andersen", Barba procurou conectar a trajetória do escritor Hans Christian Andersen à temática da escravidão. "Li que a Dinamarca iria celebrar Andersen. Então, não foi um projeto que surgiu de maneira ingênua porque sabia que conseguiria um financiamento. Mas não demorei a me interessar por sua trajetória. Ele era filho de um sapateiro e de uma lavadeira. A avó era prostituta. Tenta escapar da realidade adversa e criar um quilombo de liberdade. Aos 14 anos vai para Copenhagen. Totalmente inculto, chega com muito medo. Esforça-se para ser ator e bailarino, mas não consegue. Um aristocrata decide pagar seus estudos - e ele começa aos 16. É cisne ainda sem saber. A luta da escravidão está, portanto, ligada ao percurso de Andersen", conecta Barba, que fala português, em visita ao último Filo, em maio deste ano.

Também parece ser possível traçar um elo entre Eugenio Barba e Hans Christian Andersen. "Vim de uma família burguesa, na qual o trabalho braçal era considerado uma ofensa. Trabalhei como solador e descobri outra humanidade", assinala Barba, sempre movido pela inquietude. "Deixei a Itália em 1954. Viajar era uma imensa aventura e me deparei com um mundo separado por oceanos", relembra.

O diretor assume que "Sonhos de Andersen" difere da maior parte dos espetáculos do Odin. "É uma montagem muito cara. Mas é importante começar o trabalho de um ponto oposto ao anterior para não correr o risco de se repetir", assinala Barba. A opulência presente nesta encenação talvez contraste com a influência que Jerzy Grotowski sempre exerceu sobre Eugenio Barba. Afinal, Grotowski é conhecido pela criação do conceito de Teatro Pobre, referente à valorização do ator como elemento essencial da cena. "Grotowski me ensinou tudo. Ele transfigurou os textos clássicos poloneses, abrindo caminho para a desconstrução dramatúrgica. No início eu queria imitá-lo, mas não conseguia. Dizia aos meus atores a mesma coisa que ele dizia aos dele, mas sem alcançar resultado. É impossível apenas imitar", observa.

Ainda assim, a grandiosidade da cenografia de "Sonhos de Andersen" tem uma razão de ser. "Procuro fazer com que o espectador não só veja como multiplique tudo o que vê", diz Barba, referindo-se aos espelhos, principais elementos utilizados em cena. "Defino este espetáculo a partir do título de um poema de Carlos Drummond de Andrade: ‘Claro enigma’", cita o diretor, que construiu o trabalho a partir de um longo processo calcado no aproveitamento das associações resultantes das improvisações realizadas pelos atores do Odin, companhia que hoje agrupa 12 nacionalidades.