Simples como a vida

O amor de Maude e Harold poderia ser improvável ou impossível para alguns, mas para Glória Menezes e Arlindo Lopes, a história dos personagens é simplesmente tão encantadora que os dois ostentavam há tempos o desejo de interpretar os papéis. “Ensina-me a viver” é uma peça onde cada cena é um aprendizado prático de que celebrar a vida pode ser uma tarefa leve e sábia.

Baseada no filme “Harold e Maude” e dirigida por João Falcão, o espetáculo conta a história de um rapaz de 20 anos que tem obsessão pela morte. Em suas constantes e frustradas tentativas de suicídio, ele tenta chamar a atenção da mãe, uma socialite fútil e autoritária que apenas se preocupa em casá-lo com uma moça de boa família. Praticante de hábitos mórbidos, ele freqüenta funerais de pessoas desconhecidas e em um destes conhece a "jovem" Maude, uma senhora de 79 anos que mais parece uma menina recém-saída da adolescência. Maude também gosta de freqüentar enterros, mas por motivos totalmente opostos aos de Harold. O encontro dos dois pontua o tom de contraste de toda a peça. Aos 79 anos, a senhora entra em cena engatinhando como um bebê, catando amêndoas pelo chão. Ele, um senhor de 20 anos; ela uma menina. Ele morto, ela viva.

Harold e Maude são a síntese do oposto. A diferença é que Maude não enxerga em Harold a sua tristeza, mas sim a alegria latente que ele insiste em mascarar. O relacionamento dos dois vai sendo construído calmamente durante todo o espetáculo, entremeado de poesia, sob a competente e lúdica direção de João Falcão. É possível perceber a marca do diretor em cada cena, cada fala. João coloca seu toque de Midas no texto de Colin Higgins (Traduzido por Millôr Fernandes), transformando-o em atual e coordenando a ação cênica com lirismo e um humor refinado. A história de amor dos dois personagens em momento algum caminha para o amor com apelo físico ou sexual, nem por isso deixa de ser dotada de atração e sentimento. É genuíno como a história mostra que para ser feliz e aproveitar a vida basta pouco: apenas querer.

O figurino de Kika Lopes é adequado e denota a personalidade de cada personagem com maestria. A cenografia de Sérgio Marimba completa o lirismo da história nas projeções de imagens nas cortinas pretas, que dão um tom cinematográfico a peça, e nos adereços do palco. Todo cenário é divinamente utilizado para dar acabamento à atuação dos atores. João Falcão não desperdiça nenhum intérprete e coordena um  jogo de cena em total sintonia com o cenário e com a trilha sonora, assinada por Rodrigo Penna e tão envolvente quanto requer o espetáculo. A encenação é ágil, despretensiosa, sem reflexões pesadas, com humor negro leve, cômico na medida certa, sem cair no popularesco.

O elenco atua em perfeita sintonia com os protagonistas, com destaque para Ilana Kaplan, na caricata socialite, e para Fernanda de Freitas, que surpreende segurando com destreza três personagens  completamente diferentes e roubando a cena na encarnação da estudante de teatro. Augusto Madeira, no discurso sobre a importância de viver bem, não soa piegas, ao mesmo tempo que a adoração à morte não fica pesada. Até o elenco de apoio, formado por Verônica Valentin, Guilherme Siman e Walisson de Souza, tem visibilidade. Tudo soa divertido, delicado e prazeroso, como um dia de verão.

Arlindo e Glória dão vida aos seus personagens de forma brilhante. A química entre os dois é perfeita, e o rosto angelical de Arlindo deixa claro a fragilidade de Harold, em contraste com o jeito sapeca de Maude. O público se identifica com os dois, com as brincadeiras de bolinhas de sabão, com o jardim de margaridas de Maude, com a mãe chata, com as namoradas neuróticas, com o choro, com o riso, com o balanço em cima da árvore. Dá vontade de fazer cafuné em Harold e dar uma volta de carro com Maude.

O sucesso da peça pode ser justificado por vários motivos. O tema é sempre atual, o filme foi sucesso na época do lançamento, estamos sempre em buscas desenfreadas de receitas prontas ou manuais de auto-ajuda que nos ensine a viver. Nesta peça, descobrimos razões para querer viver e dar importância a pequenos detalhes que, na correria do mundo atual, deixamos escapar.  Saímos, com os olhos marejados, mas com vontade de sorrir para todos, ouvir o canto de um passarinho, ligar para velhos amigos, abraçar desconhecidos na rua e, como todo o público, desejando (re) descobrir como a vida pode ser realmente bela.