A última gravação de Krapp, mas não a última peça de Sérgio Britto

O espetáculo ‘'A Última Gravação de Krapp/ Ato Sem Palavras 1'', que reúne dois monólogos de Samuel Beckett interpretados por Sérgio Britto com direção de Isabel Cavalcanti, está em cartaz desde agosto no Oi Futuro, que desde seu início vem dando espaço para projetos experimentais de personalidades importantes do teatro brasileiro e internacional.

No caso, o primeiro texto é sobre Krapp, um homem velho que tem um ritual diário de registrar, como se fosse um diário, suas estórias e experiências num gravador, além de reviver o passado ouvindo sua própria voz nas antigas gravações. É interessante notar que o personagem possui semelhanças físicas e, possivelmente, pessoais com o ator, exigindo dele uma extrema exposição artística.  Já o segundo monólogo, a partir de uma rápida mudança de cenário e iluminação, é um texto composto somente de rubricas que indicam as ações de um homem perdido numa ilha deserta ensolarada, aparentemente um lugar qualquer, no meio do nada.  Contudo, Beckett consegue criar toda uma poesia humana na situação de um homem desesperado por água.

Essencialmente, a peça aposta na imperdível interpretação de Sérgio Britto que, com sutileza e simplicidade, consegue expor o lado humano dos personagens de Beckett, sem precisar recorrer aos estereótipos risíveis de outras encenações que fazem desse autor.

Além disso, vale lembrar que a peça nasceu da união desse antigo e experiente ator com a nova e talentosa diretora Isabel Cavalcanti.  Essa já desenvolve sua pesquisa sobre Samuel Beckett e o teatro do absurdo desde sua tese de mestrado, a qual deu resultado no livro "Eu que não estou aí onde estou".  Assim, ela mostra um esplêndido trabalho na sua recente trajetória, lembrando que ela também foi aluna da CAL, ou seja, é um excelente exemplo a ser seguido por todos nós alunos dessa escola.

Assim, o Rio de Janeiro fica feliz de ter em seu repertório mais um trabalho cuidadoso, com uma interpretação coerentemente humana de Sérgio Britto, quem brilha sozinho no palco com textos escritos em 1956 e 1958, mas que ainda se mantêm bastante atuais.  Justamente por tratarem, com humor e inteligência, dos problemas mais comuns do homem: passagem do tempo, desespero, morte etc, mas todos ligados por um grande tema, solidão.