A Nova Jerusalém de Zé Celso

por Daniel Schenker Wajnberg


O mar virou sertão com o Teatro Oficina, que apresentou, dentro da programação do festival riocenacontemporanea, os cinco espetáculos ("A terra", "O homem 1", "O homem 2", "A luta 1", "A luta 2") que integram o projeto de adaptação de "Os sertões", de Euclides da Cunha, para o teatro.

As montagens de "Os sertões", que já foram mostradas em festivais como o de São José do Rio Preto, refletem a atual fase do Teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, marcada por encenações grandiosas, que reúnem um extenso time de atores, de inspiração carnavalesca e natureza dionisíaca, tais como "Ham-let", "As bacantes" e "Cacilda".

O Oficina, porém, também vem investindo nas chamadas montagens de câmara, como "O assalto" e "Santidade", versões para os textos de José Vicente, além das anteriores "Pra dar um fim no juízo de Deus", peça radiofônica de Antonin Artaud, e "Ella", de Jean Genet. É a outra vertente desenvolvida pelo Oficina, que, em 2008, completará 50 anos, data que será comemorada com uma exposição no Sesc São Paulo. Vale lembrar que 1958 também foi um ano importante para a história do teatro brasileiro, devido à lendária montagem do Teatro de Arena para "Eles não usam black-tie", de Gianfrancesco Guarnieri.

O Oficina foi inaugurado no dia 28 de outubro daquele ano, por artistas como Renato Borghi, Etty Fraser e Amir Haddad, além, é claro, de José Celso Martinez Corrêa. O grupo começou com textos autobiográficos escritos pelo próprio Zé Celso - "A incubadeira" e "Vento forte para papagaio subir". No decorrer dos anos 60, o grupo montou obras da dramaturgia russa ("Os pequenos burgueses", "Andorra") e de Bertolt Brecht ("Galileu Galilei", "Na selva das cidades"). Retomou Oswald de Andrade na encenação de "O rei da vela". E adotou uma postura combativa, de oposição direta à ditadura militar, em espetáculos como "Gracias, señor". Na década de 70, Zé Celso migrou para o exílio, desembarcando em plena Revolução dos Cravos, em Portugal.

Ao longo do tempo, o Oficina foi destruído e reconstruído até chegar ao formato de teatro-passarela de Lina Bo Bardi. Um teatro que abriga um lago e uma bananeira, com uma parede espelhada que permite um nível de interação com a cidade de São Paulo (há anos a companhia vem lutando para não ter o espaço sufocado pelo projeto de construção de um shopping).

PODE-SE DIZER QUE O TEATRO OFICINA, QUE JÁ PASSOU POR DIVERSAS FASES DESDE A SUA FUNDAÇÃO, AINDA ESTÁ EM TRANSFORMAÇÃO?
JOSÉ CELSO MARTINEZ CORRÊA – O Oficina continua em transformação. Estamos engajados, há muitos anos, para não nos deixarmos sufocar pelo projeto de construção de um shopping do grupo Silvio Santos. E continuamos investindo no desenvolvimento de um teatro da tragicomédia-orgia, da ópera de Carnaval, que chamamos de Uzyna Uzona.

COMO VEM SE DESENVOLVENDO O TRABALHO DO OFICINA COM CRIANÇAS?
Procuramos ajudar crianças que vivem nas ruas e têm vontade de se tornar artistas. Aqui, no Rio, estamos trabalhando com 30 crianças graças a uma parceria com o grupo Nós do Morro. Fizemos o mesmo em outras cidades, como Recife e Salvador. Hoje a cultura não está na classe-média, mas nos excluídos, em manifestações como frevo, maracatu e funk.

ATRAVÉS DE UM PROJETO COMO "OS SERTÕES", O TEATRO OFICINA ESTÁ PERPETUANDO UMA QUESTÃO ANTIGA - A DE MOSTRAR AOS BRASILEIROS O BRASIL QUE A MAIOR PARTE NÃO CONHECE?
Acho o nosso trabalho muito ligado a Canudos. Eu, como todos os brasileiros, tenho uma dívida com Canudos, que foi a Jerusalém do sertão e se encontra numa situação bastante difícil. Depois da guerra, Canudos foi completamente esquecida. O Exército massacrou, queimou tudo e não foi feito nada em prol de uma reconstrução. Estou tentando um contato com Luciano Coutinho, do BNDES, e com o deputado federal Ciro Gomes para levar alguma riqueza para lá. É preciso tirar partido da globalização, no sentido de colocar os lugares mais necessitados em contato com o mundo. Antonio Conselheiro luta pela redenção social, pela revolução da igualdade, pela democracia. É disso que o Brasil mais precisa agora.

O OFICINA É MUITO LEMBRADO PELOS ESPETÁCULOS GRANDIOSOS, MAS O SENHOR TAMBÉM VEM INVESTINDO EM TRABALHOS DE MENOR PORTE, COMO "PRA DAR UM FIM NO JUÍZO DE DEUS" E "ELLA"...

Também gosto do teatro de câmara. Considero muito importante. E é totalmente dionisíaco. Marcelo Drummond descobriu isso na montagem de "O assalto". E fizemos um excelente aproveitamento do espaço do Oficina com "Santidade", uma montagem que gostaria que continuasse sua carreira, apesar de não ter mais vontade de voltar a trabalhar nela como ator.

O SENHOR PRETENDE MONTAR SEUS OUTROS TEXTOS SOBRE CACILDA BECKER?
Sim. Quero voltar a fazer "Cacilda" com várias atrizes brasileiras. No entanto, preciso de mais apoios para trabalhar porque o processo de "Os sertões", nesse sentido, foi muito difícil.

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