Antônio Dias; João Maciel; Antonio Maciel; Francisca Moura Imperial; Renato Villar; Rosa Baiana; Professor Tadeu; Professora Fernanda; Horácio Galvão; Telma Monte Rey; Sassá Mutema; Cíntia Levy; Zazá; Carijó; Maura; Veridiana; Leonardo; Carolina; Mário Liberato; Zé Bigorna; os Lobo Ferraz; os Almeida Santos; os Vasconcelos Lima, os de Tangará; os de Guará. Todos esses “cidadãos” e muitos outros festejarão no dia 16 de janeiro de 2008 os 70 anos de seu “pai” Lauro César Muniz.
Esses geniais personagens fazem parte da obra de Lauro César Muniz, caracterizando-o como o autor mais requintado da história da telenovela.
Observando detalhadamente a história da telenovela verificamos que, na verdade, Lauro César Muniz é o autor mais original e revolucionário. Lauro implantou uma dramaturgia de um cunho sócio-político nas novelas com uma impecável ação dramática, personagens de absoluta coerência permeados por uma temática sempre original e instigante.
Na sua estréia, aos 28 anos em “Ninguém Crê em Mim”, na TV Excelsior, com Flora Geny e Fábio Cardoso, já foi percebido como autor de uma novela moderna e original, antes mesmo de “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso. Em seguida fez uma adaptação inteligente e surpreendente de “O Morro dos Ventos Uivantes”, com Altair Lima e Irina Grecco. Passa para a TV Tupi em 1967 e escreve “Estrelas no Chão” uma ousadia na época: os bastidores da novela, com uma novela dentro da novela. Geórgia Gomide protagonizava no papel de uma atriz sem limites na busca de ascensão, ao lado de Juca de Oliveira, Susana Vieira e Luis Gustavo. “Estrelas no Chão”, serve de base para “Espelho Mágico” na TV Globo em 1977. Lauro continuava sua trajetória na TV Tupi escrevendo episódios de um seriado nacional, “A de Amor”, com o ainda “casal doçura”, Eva Wilma e John Herbert.
Em 1970, escreve para a TV Record, “As Pupilas do Senhor Reitor” adaptado da obra de Júlio Dinis, grande sucesso de audiência, numa época em que a TV Globo já liderava, e passa a ser reconhecido nacionalmente. Após o sucesso das “Pupilas”, Lauro começa a sua saga dramatúrgica de temas sócio-politicos: “Os Deuses Estão Mortos”, primoroso texto, onde a história do interior paulista e de sua economia eram contados sem nenhuma caricatura e o Barão, de Rolando Boldrin, torna-se um personagem inesquecível. “Os Deuses” teve uma continuidade na novela seguinte, “40 Anos Depois”, sobre os anos 20, a industrialização e a nova economia. O forasteiro de Paulo Goulart (precursor de Antônio Dias de “Escalada”) e a estranha diva de Nathalia Timberg eram personagens fascinantes. Após o sucesso na Record, Lauro é contratado pela TV Globo e inicia substituindo Bráulio Pedroso no meio de “O Bofe”. Logo após escreve “Carinhoso”, com Regina Duarte, às 7 da noite. Sucesso retumbante, com uma audiência maior que a novela das 8, “Cavalo de Aço”. Mesmo apresentando um tema tido como água com açúcar, “Carinhoso” tinha diálogos adultos e inteligentes e uma perfeita ação dramática; a personagem de Regina, no auge da “namoradinha do Brasil”, já falava de desquite e anulação de casamento com muita naturalidade e coerência.
“Corrida do ouro” vem a seguir, em parceria com o estreante Gilberto Braga, uma deliciosa comédia acerca de valores humanos. Lauro deixa a novela nas mãos de Gilberto para entrar às oito da noite.
“Escalada”, em 1975, é considerada por muitos como a melhor novela da televisão. Pela primeira vez é contada a história política recente do país. Numa época de censura, Lauro foi exímio em abordar temas até então impensáveis como a construção de Brasília (o nome de JK não podia ser mencionado). Pela primeira vez os protagonistas Tarcísio Meira e Renée de Vielmond viviam juntos sem serem casados, já que não havia divórcio no Brasil; uma professora também desquitada com idéias de esquerda (Nathalia Timberg), de caso com um homem mais jovem (Ney Latorraca), conseguem driblar a censura. A saga de Antônio Dias (Tarcísio, pela primeira vez sem Glória) dos 30 aos 70 anos, parou o Brasil. “Escalada” foi a primeira novela da oito após sucessos ininterruptos de Janete Clair no horário e manteve o mesmo nível de audiência. O divórcio foi instituído no país, quase dois anos após, seguramente estimulado pela novela.
A ousadia e a poesia de Lauro vinham a seguir com um desafio ao público: uma história passada em três épocas distintas, contada ao mesmo tempo e um galã sessentão (Paulo Gracindo). “O Casarão”, um requinte dramatúrgico raro, venceu todos os desafios e foi um sucesso.
“Espelho Mágico” sua novela seguinte tem a base em “Estrelas no Chão” da TV Tupi e mostra os bastidores de uma novela, com uma novela dentro da novela. Pela primeira vez apresenta um elenco inteiro de protagonistas: Tarcísio, Glória, Yoná, Juca, Lima Duarte, Tony Ramos, Sonia Braga, Vera Fischer.
Prosseguindo, Lauro traz a televisão em “Os Gigantes” temas nunca discutidos em teledramaturgia, reafirmando sua ousadia e originalidade: a eutanásia e as multinacionais. Mesmo com dificuldades em se confrontar com uma atmosfera sombria, o público brasileiro refletiu a temática.
Lauro deixa a Globo e faz na Bandeirantes, com direção de Walter Avancini, “Rosa Baiana”, a única novela da televisão totalmente gravada em externas.
O retorno a Globo dá-se, como da primeira vez, substituindo Manoel Carlos nos últimos capítulos de “Sol de Verão” e logo após escreve duas deliciosas e, “mais uma vez”, originais comédias:”Transas e caretas”, um confronto entre o arcaico e o moderno, sendo um dos personagens um robô, além de uma metáfora ao FMI, através da personagem de Eva Wilma que chamava-se Francisca Moura Imperial (FMI) e “Um Sonho Mais” em que Ney Latorraca interpretava 5 personagens, dentre eles uma mulher, Anabela, de enorme empatia.
Nas próximas novelas Lauro volta às 8 da noite com dois sucessos retumbantes e inesquecíveis: “Roda de Fogo” - onde se discutia, também pela primeira vez, os crimes do colarinho branco e a corrupção política, com interpretações marcantes de Tarcísio Meira, Cécil Thiré, Osmar Prado e Eva Wilma (interpretando uma ex-guerrilheira, também inédito na TV) – e “O Salvador da Pátria”, mostrando os bastidores do messianismo político, com uma inesquecível criação de Lima Duarte.
Na Globo ainda supervisiona “Sonho Meu”, escreve “Zazá”, substiui Solange Castro Neves em “Quem é Você?” e cria duas minisséries de grande categoria artística:”Chiquinha Gonzaga”, reencontrando Regina e Gabriela Duarte, esta no ventre de sua mãe quando atuava em “Carinhoso” e “Aquarela do Brasil” (o Brasil na segunda guerra, sempre reforçando seu “instinto de ineditismo”).
Lauro escreveu também vários “Casos Especiais”: “O Desquite”, “As Dores do Parto”, “O Santo Milagroso” (adaptação de sua peça), “São Bernardo” (adaptação do livro de Graciliano Ramos) e “O Crime de Zé Bigorna“, que chegou a virar filme.
Numa atitude de ousadia profissional Lauro deixa a Globo e entra na TV Record escrevendo “Cidadão Brasileiro”, adaptação de “Escalada” e imprimindo à emissora um prestígio raríssimo.
Muitos rótulos cabem ao Lauro dramaturgo: “o inovador”; “o ousado”; “o precursor”; “o competente”. Com grande qualidade, educou o telespectador brasileiro, fazendo-o conhecer mais apuradamente os conflitos humanos, sociais, políticos e psicológicos através de sua obra dramatúrgica e agregou um valor extremamente positivo à cultura brasileira.
Unimo-nos, portanto, a todos os personagens criados por Lauro César Muniz e celebremos os seus 70 anos aplaudindo fortemente esse grande artista brasileiro. |