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Há uma sensação febril que permanece inscrita na pele de Guilherme Weber. O ator se lembra com muito carinho do contraste entre o calor da praia e o ar refrigerado gelado do Teatro dos Quatro, onde assistiu, na década de 80, a alguns dos espetáculos que mais marcaram o seu percurso como espectador. Os anos passaram. O Teatro dos Quatro não é mais o mesmo e, talvez, nem a praia do Rio de Janeiro. Mas Guilherme Weber continua vivendo em constante estado febril graças à regularidade de trabalho na Sutil Cia., dirigida por Felipe Hirsch, que está comemorando 15 anos com a apresentação, em São Paulo, de quatro espetáculos de seu repertório: "Thom Pain - Lady Grey", de Will Eno, que acaba de integrar a Mostra Oficial do Festival de Curitiba, "Temporada de gripe", outro texto de Eno, apresentado há poucos anos em Curitiba, o novo "A educação sentimental do vampiro", criado a partir da escrita de Dalton Trevisan, e "Avenida Dropsie", espetáculo grandioso inspirado no universo de Will Eisner.
"THOM PAIN - LADY GREY" PARECE TRAZER UMA PROPOSTA CEREBRAL NO QUE DIZ RESPEITO À SUA NATUREZA VERBORRÁGICA, CALCADA NA TRANSMISSÃO DO FLUXO DE PENSAMENTO DOS PERSONAGENS. MAS HÁ TAMBÉM UMA CONSTRUÇÃO CORPORAL EVIDENTE NA QUASE IMOBILIDADE DOS ATORES EM CENA, NÃO?
GUILHERME WEBER - Quando começamos a trabalhar com textos de Will Eno, a imprensa passou a compará-lo a Samuel Beckett. Esta proposta de imobilidade e fragilidade do homem diante da platéia não pertence exatamente a Eno, mas investimos neste direcionamento. Em cena, tento fazer o mínimo de gestos e de movimentos. Há um grande esforço de contenção física que leva ao minimalismo.
PODE-SE DIZER QUE A RELAÇÃO APARENTEMENTE DIRETA DOS PERSONAGENS DIANTE DA PLATÉIA É O VERDADEIRO TEMA DO TEXTO?
GUILHERME WEBER - "Thom Pain - Lady Grey" fala de desconstrução da linguagem. Há um universo temático que gira em torno de relacionamento, amor e lembrança, mas Eno mostra também o ator perdendo o texto, pedindo um foco de luz, dialogando com a platéia.
NO QUE DIZ RESPEITO AO UNIVERSO TEMÁTICO, O GRANDE MEDO DE THOM PAIN PODERIA SER O DE MORRER SOZINHO?
GUILHERME WEBER - É uma leitura possível. Mas há o medo do fazer teatral. Uma vez, Will Eno foi assistir a uma peça e, num determinado momento, uma cadeira deveria ser imperceptivelmente puxada por um frágil fio de nylon. A cadeira acabou caindo e foi sendo retirada de cena de um modo inadequado em relação ao que se pretendia. A platéia ficou muito incomodada. Mas Eno se sentiu emocionado com esta imperfeição.
O QUADRO NEGRO DE LADY GREY, DIVERSO DO DE THOM PAIN, TRAZ UM MAPA COM CONTORNOS APAGADOS E TRAÇOS REDESENHADOS. ESTA IMAGEM PODE SER CONECTADA À PESQUISA DE MEMÓRIA REALIZADA PELA SUTIL CIA.?
GUILHERME WEBER - No caso de "Thom Pain - Lady Grey", a questão de memória é temática. Afinal, a peça fala de personagens que se referem constantemente a histórias passadas. Na verdade, a lembrança é uma construção, na medida em que, ao ser evocada, sofre acréscimos e subtrações em relação à experiência original.
ANALISANDO A TRAJETÓRIA DA SUTIL, AS QUESTÕES QUE NORTEARAM O GRUPO AO LONGO DOS ANOS PERMANECEM AS MESMAS OU MUDARAM?
GUILHERME WEBER - Durante muito tempo, a narrativa de memória foi o nosso foco principal. Passamos também pela cultura pop, pelo mergulho na dramaturgia contemporânea e pela preocupação em apresentar autores que nunca tinham sido montados no Brasil. Queremos agora utilizar a dramaturgia para a realização de espetáculos autônomos. Como se o texto servisse de ponto de partida para uma montagem que se tornaria independente em relação a ele.
VOCÊ ACHA QUE A PROPOSTA DRAMATÚRGICA DA SUTIL GUARDA ALGUM VÍNCULO COM O PASSADO DO TEATRO DOS QUATRO, MARCADO PELA REALIZAÇÃO DE MONTAGENS REFINADAS A PARTIR DE UM REPERTÓRIO IDEM?
GUILHERME WEBER - Acho complicado porque o Teatro dos Quatro não era uma companhia de artistas, e sim um espaço de produção. Cresci assistindo aos espetáculos deles e lembro muito de alguns, como "Afinal, uma mulher de negócios" e "As lágrimas amargas de Petra Von Kant". Tenho inscrita em mim uma lembrança bastante precisa: a do contraste entre o calor da praia e o ar refrigerado geladíssimo do teatro, que gerava uma espécie de sensação febril.
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