Lembrança de uma febre

Ator da Sutil Cia., que está comemorando aniversário, Guilherme Weber respira teatro há muitos anos

por Daniel Schenker Wajnberg


Há uma sensação febril que permanece inscrita na pele de Guilherme Weber. O ator se lembra com muito carinho do contraste entre o calor da praia e o ar refrigerado gelado do Teatro dos Quatro, onde assistiu, na década de 80, a alguns dos espetáculos que mais marcaram o seu percurso como espectador. Os anos passaram. O Teatro dos Quatro não é mais o mesmo e, talvez, nem a praia do Rio de Janeiro. Mas Guilherme Weber continua vivendo em constante estado febril graças à regularidade de trabalho na Sutil Cia., dirigida por Felipe Hirsch, que está comemorando 15 anos com a apresentação, em São Paulo, de quatro espetáculos de seu repertório: "Thom Pain - Lady Grey", de Will Eno, que acaba de integrar a Mostra Oficial do Festival de Curitiba, "Temporada de gripe", outro texto de Eno, apresentado há poucos anos em Curitiba, o novo "A educação sentimental do vampiro", criado a partir da escrita de Dalton Trevisan, e "Avenida Dropsie", espetáculo grandioso inspirado no universo de Will Eisner.

"THOM PAIN - LADY GREY" PARECE TRAZER UMA PROPOSTA CEREBRAL NO QUE DIZ RESPEITO À SUA NATUREZA VERBORRÁGICA, CALCADA NA TRANSMISSÃO DO FLUXO DE PENSAMENTO DOS PERSONAGENS. MAS HÁ TAMBÉM UMA CONSTRUÇÃO CORPORAL EVIDENTE NA QUASE IMOBILIDADE DOS ATORES EM CENA, NÃO?

GUILHERME WEBER - Quando começamos a trabalhar com textos de Will Eno, a imprensa passou a compará-lo a Samuel Beckett. Esta proposta de imobilidade e fragilidade do homem diante da platéia não pertence exatamente a Eno, mas investimos neste direcionamento. Em cena, tento fazer o mínimo de gestos e de movimentos. Há um grande esforço de contenção física que leva ao minimalismo.

PODE-SE DIZER QUE A RELAÇÃO APARENTEMENTE DIRETA DOS PERSONAGENS DIANTE DA PLATÉIA É O VERDADEIRO TEMA DO TEXTO?

GUILHERME WEBER - "Thom Pain - Lady Grey" fala de desconstrução da linguagem. Há um universo temático que gira em torno de relacionamento, amor e lembrança, mas Eno mostra também o ator perdendo o texto, pedindo um foco de luz, dialogando com a platéia.

NO QUE DIZ RESPEITO AO UNIVERSO TEMÁTICO, O GRANDE MEDO DE THOM PAIN PODERIA SER O DE MORRER SOZINHO?

GUILHERME WEBER - É uma leitura possível. Mas há o medo do fazer teatral. Uma vez, Will Eno foi assistir a uma peça e, num determinado momento, uma cadeira deveria ser imperceptivelmente puxada por um frágil fio de nylon. A cadeira acabou caindo e foi sendo retirada de cena de um modo inadequado em relação ao que se pretendia. A platéia ficou muito incomodada. Mas Eno se sentiu emocionado com esta imperfeição.

O QUADRO NEGRO DE LADY GREY, DIVERSO DO DE THOM PAIN, TRAZ UM MAPA COM CONTORNOS APAGADOS E TRAÇOS REDESENHADOS. ESTA IMAGEM PODE SER CONECTADA À PESQUISA DE MEMÓRIA REALIZADA PELA SUTIL CIA.?

GUILHERME WEBER - No caso de "Thom Pain - Lady Grey", a questão de memória é temática. Afinal, a peça fala de personagens que se referem constantemente a histórias passadas. Na verdade, a lembrança é uma construção, na medida em que, ao ser evocada, sofre acréscimos e subtrações em relação à experiência original.

ANALISANDO A TRAJETÓRIA DA SUTIL, AS QUESTÕES QUE NORTEARAM O GRUPO AO LONGO DOS ANOS PERMANECEM AS MESMAS OU MUDARAM?

GUILHERME WEBER - Durante muito tempo, a narrativa de memória foi o nosso foco principal. Passamos também pela cultura pop, pelo mergulho na dramaturgia contemporânea e pela preocupação em apresentar autores que nunca tinham sido montados no Brasil. Queremos agora utilizar a dramaturgia para a realização de espetáculos autônomos. Como se o texto servisse de ponto de partida para uma montagem que se tornaria independente em relação a ele.

VOCÊ ACHA QUE A PROPOSTA DRAMATÚRGICA DA SUTIL GUARDA ALGUM VÍNCULO COM O PASSADO DO TEATRO DOS QUATRO, MARCADO PELA REALIZAÇÃO DE MONTAGENS REFINADAS A PARTIR DE UM REPERTÓRIO IDEM?

GUILHERME WEBER - Acho complicado porque o Teatro dos Quatro não era uma companhia de artistas, e sim um espaço de produção. Cresci assistindo aos espetáculos deles e lembro muito de alguns, como "Afinal, uma mulher de negócios" e "As lágrimas amargas de Petra Von Kant". Tenho inscrita em mim uma lembrança bastante precisa: a do contraste entre o calor da praia e o ar refrigerado geladíssimo do teatro, que gerava uma espécie de sensação febril.

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