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Alcançar reconhecimento no teatro sem aderir ao humor besteirol ou à febre do musical nem sempre é fácil. Julio Adrião conseguiu vencer a barreira. Colheu elogios ao longo da temporada de "A descoberta das Américas", na Casa do Mercado (Praça XV), e ganhou o Prêmio Shell de melhor ator pelo espetáculo, que voltará ao cartaz, dia 10 de janeiro, inaugurando a Sala Tônia Carrero, no Leblon, que contará com 200 lugares e também terá em sua programação a montagem de "A gente se ama", dirigida por Flavio Marinho, e, nos finais de semana, "Mister Bruno e sua trupe tropical".
Paralelamente, Adrião ministra, em janeiro, um curso na CAL - Casa das Artes de Laranjeiras, onde se formou, em 1986. O curso é centrado no "ator sem caráter" - sem caráter no sentido de sem personagem (character), vertente próxima do performer. E o ator ainda poderá ser visto no curta-metragem solo "O dia em que não matei Bertrand", de Ives Rosenfeld e Luiz Carlos Oliveira Jr., baseado no conto homônimo de Sérgio Sant'Anna.
Texto de Dario Fo, "A descoberta das Américas" resultou de uma parceria com a diretora Alessandra Vanucci. "Conheci Alessandra em 2000 e ela me convidou para traduzir o original com ela. Na época, o projeto era uma encomenda por ocasião das comemorações dos 500 anos de descobrimento", lembra Julio Adrião, que morou, durante seis anos, na Itália.
Por iniciativa do Instituto Italiano de Cultura, foi feita uma primeira leitura do texto no Museu da República. Mas o projeto acabou não sendo levado adiante. No lugar dele, partiram para a montagem de "Ruzzante", de Angelo Beolco, espetáculo itinerante apresentado, em 2002, também na Praça XV, realizado com a Cia. do Público, composta por Sergio Machado, Marcio Libar e Claudio Gabriel. A montagem deu origem à produtora leões de circo pequenos empreendimentos, criada por Julio Adrião, Alessandra Vanucci e Sidney Cruz.
O projeto de "A descoberta das Américas" só foi retomado em 2004. Valeu a espera. Desde a estréia, o espetáculo participou de 14 festivais de teatro no Brasil e foi visto por 25 mil pessoas em 171 apresentações. Esta montagem dá continuidade à pesquisa de Julio Adrião, identificado com um registro de ator popular, a julgar pelo direcionamento que vem dando à sua carreira desde o final da década de 80, quando seguiu para a Itália, inicialmente com o intuito de permanecer durante apenas oito meses, para buscar aperfeiçoamento num trabalho corporal contundente. "Acho que até hoje atuei bem mais na rua do que no teatro fechado”.
“Ruzzante” é precursor da commedia dell'arte, perpetuada por Dario Fo em “A descoberta das Américas'", detecta Adrião, citando a tradição popular na qual os atores utilizavam os textos como roteiros para a realização de improvisações.
Adrião destaca grupos que vêm desenvolvendo importante trabalho ligado à rua, como o Galpão, o Tá na Rua e o Anônimo, além dos trabalhos desenvolvidos em Cariri, que costuma sediar uma mostra de teatro de rua, e Lages. "É a oportunidade de aproximar o povo do teatro. Os espetáculos de rua não contam com os mesmos respaldo e divulgação. Quando ganhei o Prêmio Shell me senti representante de um setor do teatro que não costuma ser visto", afirma.
Julio Adrião também identifica uma conexão pessoal com a figura do clown. "Não me considero exatamente um palhaço, mas me vejo próximo do bufão. Minha poesia é mais escatológica. Valorizo o lado sujo da comicidade", explica Adrião, que, depois de anos radicado na Itália, decidiu retomar a carreira no Brasil. |