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Uma das companhias mais visadas na cena brasileira, o Teatro da Vertigem adotou princípios artísticos bastante contemporâneos, como a realização de espetáculos em espaços não-convencionais, nos quais os integrantes do grupo aproveitam a carga inerente a cada local (a igreja em "Paraíso perdido", o hospital em "O livro de Jó", o presídio e/ou as instalações do antigo DOPS em "Apocalipse 1,11" e o rio Tietê em "BR 3"), a utilização de uma dramaturgia construída juntamente ao processo de criação da montagem e a presença de atores disponíveis a travar um grau contundente de exposição diante do espectador. Depois de fechar a trilogia bíblica, o Vertigem decidiu discutir a identidade nacional em "BR 3", encenação que exigiu longo tempo de preparação e deve voltar a ser mostrada no decorrer de 2007. Tendo seu trabalho analisado por estudiosos, como a professora Silvia Fernandes, o grupo lançou atores como Matheus Nachtergaele, Mariana Lima e Joelson Medeiros e vem agregando escritores como Bernardo Carvalho.
O Teatro da Vertigem não começou como um grupo que priorizava a realização de espetáculos. Em que medida o caráter de pesquisa permanece presente na companhia hoje em dia?
ANTONIO ARAUJO - Quando começamos, não tínhamos como ponto de partida o desejo de nos tornarmos um grupo de teatro, mas sim um grupo de estudos. Fomos nos interessando por noções que surgiram no estudo da física clássica e acabaram sendo levadas ao palco tempos depois. Acho que o caráter de pesquisa atravessa todos os nossos espetáculos. No caso de "BR 3", fizemos pesquisa de campo em três lugares - Brasilândia, bairro de São Paulo, Brasília, capital do País, e Brasiléia, no Acre.
Como foi a vivência do grupo em Brasilândia, Brasília e Brasiléia?
No caso de Brasilândia, fizemos um acordo com a associação de moradores e reformamos uma casa, onde nos instalamos e oferecemos oficinas. Esta casa ficava diante de um córrego, onde as pessoas jogavam lixo. É algo que revela o contraste de uma cidade com alta tecnologia como São Paulo, de onde saímos no final de junho de 2004, de caminhão, rumo a Brasiléia, no Acre. No caminho, paramos em Brasília. A viagem durou pouco mais de um mês. Em relação à Brasília, a arquitetura e o cunho político são muito fortes em nosso imaginário, mas o elemento místico se impôs. A visita que o grupo fez ao Vale do Amanhecer foi extremamente impactante. As expectativas a respeito de Brasiléia não se confirmaram. A tendência é imaginarmos uma cidade descuidada, mas nos deparamos com uma muito arrumadinha. A sensação de devastação, de fim de mundo, normalmente atribuída ao Acre, está mais presente em Rondônia.
Com "BR 3" vocês lidaram bastante com as noções de centro e periferia, não?
O que é centro? O que é periferia? Problematizamos estas questões. Brasiléia é considerada região periférica, distante do Brasil do Sudeste, mas conta com um movimento de preservação da natureza. Brasilândia fica a cerca de meia hora do centro de São Paulo, que, por sua vez, tem áreas muito depauperadas. Em Brasilândia há concentração de habitações de tijolo baiano a perder de vista. O dado labiríntico da geografia paulistana fica potencializado.
Apesar do processo de montagem de "BR 3" ter sido bastante longo, o espetáculo foi apresentado durante relativamente pouco tempo. Por que? Há planos de reestréia no decorrer de 2007?
De fato, preparamos "BR 3" durante dois anos e três meses e só apresentamos entre março e maio de 2006. Sempre fazemos temporadas longas, mas sabíamos que seria difícil com este trabalho. Tivemos que parar por alguns fatores - entre eles, a subida exorbitante do aluguel dos barcos. A logística também é muito complicada. O cenário precisa ser montado e desmontado a cada apresentação porque senão roubam tudo. Não podemos reestrear agora porque estamos em período de chuva em São Paulo, que vai até março. Queremos, então, voltar a partir de abril.
Os atores do Teatro da Vertigem - e isto já está indicado no próprio nome da companhia - disponibilizam-se a uma exposição bastante contundente, buscam o risco, aproximam-se do "precipício". Fale um pouco sobre esta vertente e os aspectos inerentes à sustentação dela:
Os atores do Teatro da Vertigem trabalham com narrativas pessoais e com seus posicionamentos críticos. Eles se colocam em posição de risco, mas não de maneira kamikaze. Quando nos apresentamos num hospital ativo que atende pacientes com tuberculose, os atores ficaram preocupados. É claro que era preciso tomar cuidado. Afinal, não estávamos num teatro com palco italiano, num contexto mais protegido. "BR 3" ‚ um espetáculo feito no Tietê, um rio poluído, esgoto a céu aberto. O ator fica em cima de um barco pequeno. E se o barco virar? Mas fizemos cursos de segurança, tomamos vacina contra tétano, hepatite A e B. Os atores usam coletes salva-vidas feitos nas dimensäes do peso de cada um.
Os espetáculos do grupo vêm sendo norteados por alguns princípios como o processo colaborativo, a busca por espaços não-convencionais, a inserção do dramaturgo no cotidiano de trabalho e a opção por uma dramaturgia contruída no decorrer dos ensaios. Como estes elementos vêm sendo desenvolvidos ao longo dos anos?
São realmente princípios de trabalho. A dramaturgia em processo é uma característica comum aos quatro espetáculos, assim como a questão colaborativa, que leva todos a criarem juntos aquela obra. A escolha do espaço está ligada à discussão temática. Em "BR 3" discutimos a identidade nacional e, como não acreditamos na idéia de identidade fixa e rígida, achamos que o rio materializaria a perspectiva da mobilidade. Além disso, nada mais adequado que o Tietê para falar das pessoas que jogam lixo nos córregos e da devastação da Floresta Amazônica. O Tietê é fruto do projeto de modernização de São Paulo, que tem a destruição na base. Há lixo em baixo dos viadutos megalomaníacos. A cidade recalca o rio, a ponto dele deixar de existir. Tanto que a Marginal Tietê é muito mais percebida do que o rio. Os outros espaços também não foram ocasionais. Em "Paraíso perdido", apresentado numa igreja, discutíamos o sagrado; em "O livro de Jó", num hospital, o sagrado permanecia mas a Aids vinha para o primeiro plano; e em "Apocalipse 1,11", num presídio, nos detivemos na sensação de caos imperante no Brasil e da experiência apocalíptica ocorrida em São Paulo que foi o massacre do Carandiru.
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