| Um trabalho bem-sucedido às vezes pode resultar em uma armadilha para o futuro. Tanto pelo grau de exigência e expectativa do público, como pela inevitável comparação da presente obra com a passada. Depois do sucesso de “Ensaio.Hamlet”, desconstrução da obra de Shakespeare que rodou o mundo em elogiadas apresentações, Enrique Diaz apresenta “Gaivota – tema para um conto curto”, montagem baseada em “A gaivota”, de Anton Tchekhov.
Apesar de não se tratar de uma montagem da Cia. dos Atores, no palco do Teatro Poeira está boa parte do elenco de “Hamlet”, seguindo a mesma linha interpretativa do espetáculo anterior. No entanto, quem pensa que assistirá a uma espécie de “Ensaio.Gaivota” pode se enganar. Em vez de utilizar o mesmo “método”, Diaz faz uso de uma série de novas ferramentas e avança de forma curiosa a sua pesquisa de linguagem, sem dar margens a grandes repetições estéticas ou formais.
Até porque o diretor reconhece a influência de “Hamlet” na atual montagem, chegando a listar no programa da peça alguns pontos em comum nos dois textos: a peça-dentro-da-peça, o conflito mãe e filho, o desafio para um duelo, o desejo do suicídio, etc.
As diferenças começam na cenografia de Afonso Tostes. Um piso branco, que será “sujado” pelos atores ao longo da peça. Se em “Hamlet” o preto dominava, assim como uma atmosfera fantasmagórica e misteriosa, desta vez isto é substituído por elementos da natureza (vegetais, água, café) que invadirão a cena, ajudando a localizar os espectadores na fazenda em que se desenrola boa parte da ação.
Interessante notar que o diretor abandona a série de referências a cultura pop que norteava o “Hamlet”, para dialogar com elementos quase opostos, chegando a assumir um certo sabor “de época” na encenação.
Vôo de muitas possibilidades
O cenário cumpre por vezes a função que estava atrelada aos corpos dos atores na peça anterior. Desta vez, os atores abrem mão de uma performance mais visceral, sempre de acordo com a proposta que toma conta do espetáculo: mostrar que se trata de uma leitura, dentro de muitas outras possibilidades de interpretação do texto. O que fica claro com a explícita presença do diretor em cena, comentando e analisando a montagem enquanto a mesma é apresentada.
Além disso, há o recurso do vídeo que ilustra a ação e mostra ao público outras “tentativas”, ou seja, leituras que o texto foi ganhando ao longo do processo de ensaios. Neste caso, é interessante notar como os objetos de cena e mesmo os vegetais ganham e perdem significado de uma cena para a outra, enfatizando a proposta de que não existe somente uma leitura para cada obra ou conceito. Talvez seja esta a linha central para se entender o espetáculo.
No caso de “Gaivota – tema para um conto curto”, uma das idéias é mostrar determinadas personagens se comportando como gaivotas que não conseguem alçar vôos, ou como uma gaivota que tem o vôo interrompido por um tiro, disparado por alguém que não tinha mais o que fazer. Metáforas batidas e reforçadas em cenas que acabam funcionando até para exemplificar o tédio descrito por Tchekhov no texto original.
Mais do que dar vida ao texto, a montagem em questão aprofunda algumas das questões tratadas no texto de “A gaivota”, peça que fala do próprio teatro e das novas formas de encenação. Desta vez, com um diretor em cena, o espetáculo não oferece nenhuma resposta ou ponto de vista mais engajado. Bem no espírito do projeto, a apresentação apenas levanta esta discussão, sem defender um ou outro ponto, atitude mais do que adequada.
O humor – sempre presente nos trabalhos da Cia. dos Atores – aparece em menor escala. Mesmo assim, o deboche e a ironia dão o tom de algumas cenas bem divertidas. De repente, pela opção de se manter “mais próximo” ao texto original, mas sem reverenciá-lo, é claro.
A participação dos atores na criação do que é mostrado fica explícita. O entrosamento do elenco é nítido e, mesmo fazendo uso da “troca de personagens” (já explorada em “Meu destino é pecar”, da Cia. dos Atores, dirigida por Gilberto Gawronski, que está em cena), consegue evidenciar alguns destaques particulares.
No entanto, o número de atores (vestidos elegantemente, como de costume, por Marcelo Olinto) poderia ser reduzido, em benefício do espetáculo. Se a presença de Enrique Diaz, que exerce mais o papel de um “apresentador-diretor-narrador”, se torna necessária, Gilberto Gawronski parece sobrar em cena, apesar de compor bem a personagem que “ficará sentada e calada até o final”. Felipe Rocha e Malu Galli sobressaem do conjunto, ao emprestarem vitalidade e boa dose de ironia nas composições. A cena em que Arkadina assiste à apresentação da peça do filho é um prato cheio para os atores exibirem o habitual talento.
Emílio de Melo e Mariana Lima adotam tom mais solene ao longo do espetáculo, destoando da performance despojada de seus companheiros. Contudo, Emílio é uma presença forte no palco, assim como Bel Garcia que, mesmo com menor participação, consegue compor suas cenas com inteligência e fino humor.
GAIVOTA – TEMA PARA UM CONTO CURTO – Adaptação de “A gaivota”, de Tchekhov. Direção Enrique Diaz. Com Bel Garcia, Emílio de Mello, Enrique Diaz, Felipe Rocha, Gilberto Gawronski, Malu Galli e Mariana Lima. De quinta a sábado, às 21h. Domingo, às 20h. Teatro Poeira (R. São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053). Até 4 de março.
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