|
Quando sentamos em uma das 420 cadeiras do Teatro Leblon para assistir a peça, estamos diante de apenas uma cadeira no centro do palco, cuja iluminação é feita por alguns poucos lampiões espalhados pelo teto, palco e em cima de um pequeno cubo que se encontra perto da cadeira. O cenário é sutil, com a predominância da cor negra através de um fundo neutro e a pouca iluminação.
Eis que surge Clarice passando discretamente entre os espectadores, apropria-se do palco ainda sorrateira. Trajada com um vestido preto, nos explica o porquê da adaptação do livro “A Alma Imoral”, do rabino Nilton Bonder para o teatro. E antes que o texto ganhe espaço, ela nos surpreende, indicando que podíamos pedir a repetição de trechos do espetáculo que gostaríamos de reviver, bastava gritar palavras referentes às partes desejadas. Nesse momento, a sensação do espectador que atua era tão viva no meu corpo apenas sentado, que já por isso, o espetáculo diferenciava-se. Desde então, Clarice nos tornou marcadores de um livro pulsante.
Clarice começa a magia falando de alma, de moral, de imoralidade, enfim, da alma imoral, enquanto se despe. O figurino que era um vestido passa a ser o seu corpo nu. Essa nudez desvelada que nos salta aos olhos, ou melhor, que nos embala de tão lírica e poética vem ao encontro da sua idéia de representação da alma em si. Com o jogo de oposições dos conceitos de moral e imoral, ela nos mostra que a moral sempre foi a nossa couraça que nos impede de ser, nossa vestimenta mais bem elaborada para que a nossa alma nua como é, seja aprisionada, castrada, ou censurada. O recurso cênico que Clarice escolheu não poderia ser melhor, nos toca, e nos depara com a perturbadora sensação de que criamos uma moral do “melhor tecido” para nos suportar tais como seres demasiadamente humanos prisioneiros de todas as leis, tradições e hábitos com os quais a alma simplesmente não colabora.
Ao percorrer esse fio condutor, através de parábolas judaicas muito bem escolhidas, Clarice amplia o nosso olhar, esse olhar domesticado que não percebe as traições carregadas pelas tradições, a justiça plena contemplada na desobediência das leis, o nosso purgatório instaurado através de uma consciência moralista e obediente contra qual a nossa alma empreende uma luta diária para retornar ao Éden, e assim, o quão erramos ao dogmatizar, catalogar e vomitar o que é certo e errado. A quantidade de pensamentos e elucubrações traz um ritmo para a peça que Clarice acompanha apenas com um pano preto que fora o seu vestido anteriormente. Com uma presença de corpo incrível, e sua lucidez nas composições, o pano virou não apenas inúmeras personagens das parábolas, mas também ao dançar pelo palco, nos vimos, muitas vezes, arrebatados pelos efeitos dos movimentos e da fluidez que a atriz produzia, como se, finalmente, compreendêssemos como seriam os desvarios de nossas almas.
Ao assistir “A Alma imoral”, tenho de confessar que a busca pela minha natureza transgressora pareceu ainda mais urgente. É fato que a peça não ampliou os espaços estreitos por onde passamos, mas, provavelmente, ampliou o espaço pelo qual minha alma tanto reivindica passagem.
Obrigada, Clarice.
A ALMA IMORAL - De Nilton Bonder. Supervisão de Amir Haddad. Com Clarice Niskier. Terças e quartas, às 21h. Teatro Leblon (R. Conde de Bernadotte, 26 - Leblon. Tel: 2294-0347).
|