AO LEITOR
Daniel Schenker

Sem perder de vista o panorama cultural dos dias de hoje, a nova edição da CAL DIGITAL evoca artistas de importância incontestável para a história do teatro brasileiro. Ator e diretor que influenciou decisivamente nos rumos da cena do país na segunda metade do século XX, Sergio Britto é homenageado por meio de texto de sua sobrinha, Marília Brito, que realça a relevância do amplo acervo do tio. O acervo foi enviado à CAL devido à conexão direta de Sergio com a escola que, fundada em 1982, ganhou nova sede, nos últimos anos, para abrigar a faculdade, o Instituto CAL.

Coordenador da CAL, Hermes Frederico traz à tona outra figura emblemática: a da atriz Cleyde Yáconis, que morreu em abril de 2013 e estabeleceu afinada contracena com Sergio Britto na montagem de Longa Jornada de um Dia Noite Adentro, de Eugene O’Neill, sob a direção de Naum Alves de Souza. Em seu artigo, Hermes destaca a brilhante carreira de Cleyde tanto no teatro quanto na televisão. Professor da CAL e Doutor em Artes Cênicas pela UniRio, Daniel Schenker frisa a trajetória de outro ator emblemático, Ary Fontoura, que comemora 60 anos de carreira com a montagem de O Comediante, de Joseph Meyer, dirigida por Anderson Cunha (assistente de José Wilker, precocemente falecido).

A perspectiva histórica ganha corpo nos artigos de Elza de Andrade, Álvaro de Sá e Paulo Afonso de Lima – todos professores da CAL. Doutora em Artes Cênicas pela UniRio, Elza discorre sobre o desenvolvimento da comédia, desde a Grécia (Comédia Antiga, Comédia Nova), passando por Roma, pelo surgimento de gêneros durante a Idade Média (com especial menção para a farsa), a retomada da dramaturgia ao longo do Renascimento. A autora fala sobre o desembarque do gênero num teatro que começou tardiamente como o brasileiro, norteado, desde o século XIX, pela comédia de costumes. Mestre em Artes Cênicas pela UniRio, Álvaro aborda a dramaturgia de Artur Azevedo, maranhense que impulsionou a revista, subgênero do teatro musical, de origem francesa, que se desenvolveu de forma marcante na cena brasileira, e autor de burletas consagradas, como O Mambembe e A Capital Federal. Paulo Afonso também se debruça sobre a cena brasileira em texto que joga luzes sobre profissional de ponta da fase final do Teatro de Revista: Carlos Machado.

Em artigo acadêmico, Henrique Buarque de Gusmão – Doutor em História Social pela UFRJ –, contextualiza a influência de romances europeus sobre as concepções cênicas e relativas ao trabalho de ator propostas por Constantin Stanislavski. E Alice Reis, à frente do Núcleo de Adolescentes e Crianças da CAL, fala sobre a relevância dessa iniciativa, que faz com que o teatro integre a vida desde os primeiros anos. A nova edição da CAL DIGITAL conta ainda com dicas que elegem destaques da programação cultural, a exemplo de um livro sobre o trabalho do diretor e cenógrafo Luiz Carlos Ripper, uma nova encenação de Ópera do Malandro, de Chico Buarque, o filme O Grande Hotel Budapeste, do prestigiado Wes Anderson, e a exposição de obras de Salvador Dalí acompanhada de uma mostra de filmes surrealistas.