ANTES DE “ELLIS” E “TIM MAIA”,
NA DÉCADA DE CINQUENTA O TEATRO
MUSICAL BIOGRÁFICO NO BRASIL JÁ
HAVIA SIDO INVENTADO... NA
MADRUGADA!
Paulo Afonso de Lima
Se do início do século até os anos 40 podemos falar de um teatro musical brasileiro através de nomes como Arthur Azevedo, Chiquinha Gonzaga e Jardel Jércolis, por exemplo, é uma realidade o considerado “hiato” que se estabeleceu de 1950 até 1962, quando a estréia de MY FAIR LADY fez o publico redescobrir no Brasil o Teatro Musical, obrigando nossos criadores a tentar timidamente um modo brasileiro de interpretar uma fórmula americana, com resultados no entanto esporádicos e inexpressivos, que só agora, nas duas ultimas décadas atingiu um resultado verdadeiramente expressivo. E quando falamos em TEATRO MUSICAL não estamos incluindo o Teatro de Revistas, onde existe uma estrutura dramatúrgica absolutamente diferente.
Com o fechamento dos cassinos em 1946, muitos dos grandes profissionais que concebiam, escreviam e dirigiam seus shows musicais pensaram em dar continuidade à uma linha de trabalho, apurando o modelo original com realizações dirigidas a um publico mais sofisticado, vindo dos cassinos, longe da Praça Tiradentes, precisamente nas casas noturnas que começavam a surgir em alguns pontos do Rio de Janeiro. Carlos Machado (José Carlos Penafiel Machado - 1908 / 1992) foi o primeiro a vislumbrar que esses espetáculos poderiam ser não somente uma sucessão de quadros e cenas (como na revista), mas como nossos gloriosos antecessores (FORROBODÓ, de Luiz Peixoto e Chiquinha Gonzaga, A CAPITAL FEDERAL e O MAMBEMBE, de Arthur Azevedo com música de Assis Pacheco) contassem uma história com princípio, meio e fim. É claro que a ingenuidade do fio condutor dessas experiências na madrugada se limitava a uma estrutura tênue e quase imperceptível. Mas não há como negar o fato de Machado ter se recusado, desde suas primeiras experiências como produtor e diretor, a criar espetáculos sem um “plot” ou pelo menos uma forte temática e principalmente, em muitas ocasiões, ter desenvolvido e “inventado”, digamos assim, um teatro musical onde a biografia de determinado “homenageado” fosse o objetivo principal, tal qual fazem hoje as nossas escolas de samba em alguns de seus enredos ou muitos dos nossos autores teatrais em realizações consagradas e aclamadas pelas platéias.
Numa conversa informal pouco antes de morrer ao lado de sua mulher, Gisella, Machado me disse sorrindo: “Sabe os filmes que eu e a Gisella adorávamos assistir, geralmente três ou quatro vezes na mesma semana? Aquelas biografias coloridas da Metro, onde o tema era a vida de um autor, uma estrela de teatro e principalmente um compositor. Eu tentei colocar isso num palco. Mas parecem que vocês, jovens do teatro de hoje, não querem mexer com a vida de ninguém. Preferem montar o Édipo ou o Fausto, não é mesmo?” E, ainda sorrindo, deu uma piscadela marota para mim, que precisamente há alguns anos tinha dirigido as obras de Sófocles e Brecht com a participação de Djenane Machado, sua filha. Hoje penso que não deixa de ser intrigante o fato de eu ter escrito e dirigido anos depois a minha primeira experiência teatral com uma temática biográfica: O REI DA NOITE, justamente a vida de Machado, no hoje extinto Teatro Gloria do Rio de Janeiro.
Pois a primeira realização biográfica de Machado e seguramente a primeira incursão no gênero em forma de musical que se fez no Brasil, com uma forte influencia (confessada por ele) dos mencionados filmes da Metro, foi ACONTECE QUE EU SOU BAIANO que homenageou Dorival Caymmi, no qual foi lançada a cantora Angela Maria. Em FEITIÇO DA VILA, Machado homenageou Noel Rosa, tendo no elenco alem de Grande Otelo, os ídolos Sílvio Caldas e Elizeth Cardoso. Sobre esse espetáculo assim escreveu a jornalista Elsie Lessa no jornal O Globo: "Feitiço da Vila" é um show que a gente assiste de garganta apertada, quase de olhos molhados, de tão brasileiro, tão nosso, tão festa de São João, conversa de botequim, prosa de malandro, vida de bairro, amor feliz". Em 1958, levou ao palco a vida de Ary Barroso com MISTER SAMBA que apresentou cerca de 40 composições de Ary, entre as quais "É Luxo Só", feita especialmente para aquele espetáculo, do qual participaram Aurora Miranda e Grande Otelo. Em 1963, Machado apresentou no Golden Room do Copacabana Palace, aquela que seria uma de suas maiores realizações: TEU CABELO NÃO NEGA, uma homenagem ao compositor Lamartine Babo. O espetáculo foi intensamente elogiado pela crítica recebendo comentários como o de Antonio Maria: "Pela primeira vez, nessa longa e acidentada história do show carioca, há uma opinião unânime: Carlos Machado fez, afinal, o grande musical brasileiro”.
Machado com certeza seria um grande admirador dos trabalhos de Gustavo Gasparani, Fátima Valença, Nelson Motta, Patricia Andrade, Sandra Louzada, João Falcão, Antonio de Bonis e tantos outros. Ficaria também feliz em testemunhar o patamar de qualidade e prestígio que Claudio Botelho e Charles Möeller colocaram o Teatro Musical que hoje se faz no Brasil.
Carlos Machado não foi só O REI DA NOITE, mas também um grande visionário, realizador e pioneiro do musical brasileiro. E é preciso que se faça justiça: foi principalmente nos palcos das casas noturnas que se exercitou, nos anos 50 e 60, uma linguagem brasileira de se fazer musical. Carlos Machado foi o legítimo “inventor” das “ceno-biografias” (como ele gostava de chamar) no panorama teatral do Brasil. E tudo isso aconteceu de madrugada...