| Nelson Rodrigues (1912-1980) demorou a ser assimilado pelo teatro brasileiro. Vestido de Noiva permanece como um divisor de águas, tanto pela estrutura do texto (dividido entre os planos de realidade, memória e alucinação) quanto pelo revolucionário espetáculo de Ziembinski, com o grupos Os Comediantes, em 1943. Apesar de tudo, o dramaturgo não teve seus textos encenados com assiduidade nos anos seguintes. Causou escândalo no início da década de 60, quando o Teatro dos Sete montou O Beijo no Asfalto. Hoje a situação é bastante diferente. As peças de Nelson são encenadas com frequência – ainda que algumas bem mais do que outras. Neste ano de comemoração do centenário de Nelson, o volume de montagens deverá aumentar consideravelmente. No Rio de Janeiro está em cartaz a versão de Caco Coelho para Vestido de Noiva, que toma conta da rotunda do Centro Cultural Banco do Brasil. O espectador entra dentro da estrutura e assiste, recostado, à disputa passional das duas irmãs, Alaíde e Lúcia, pelo mesmo homem, Pedro. No Festival de Curitiba, o grupo Os Fodidos Privilegiados retomou O Casamento, que apresentou nos anos 90, com elenco original, e Escravas do Amor, adaptação do folhetim escrito com o pseudônimo de Suzana Flag. Por iniciativa da Funarte, as 17 peças de Nelson deverão ser remontadas por grupos de todo o país. Renato Borghi e Élcio Nogueira Seixas estão envolvidos com a tradução para o espanhol e inglês das obras do dramaturgo para o teatro. A editora Nova Fronteira promete novos lançamentos. O filme Bonitinha mas Ordinária, de Moacyr Góes, deverá chegar às telas, com João Miguel e Leandra Leal. Diversos projetos já vêm sendo postos em prática. O Espaço Sesc, em Copacabana, acaba de sediar um ciclo de debates, coordenado por Antonio Gilberto, com profissionais ligados a trabalhos com obras de Nelson (a exemplo da atriz Camilla Amado, que participou da versão de 1976, dirigida por Ziembinski, de Vestido de Noiva, do diretor Aderbal Freire-Filho, que assinou uma personalíssima montagem de Senhora dos Afogados, da atriz Lucelia Santos, que protagonizou o filme Bonitinha mas Ordinária, e da tradutora Angela Leite Lopes). Nelson e Crica Rodrigues, filho e neta do dramaturgo, também participaram do evento. O diretor Marco Antônio Braz organizou a mostra Quem ainda tem medo de Nelson Rodrigues?, composta por cinco espetáculos – O Beijo no Asfalto, Valsa nº 6, Os Sete Gatinhos, 17 X Nelson (Parte II) e As Noivas de Nelson (adaptação de A Vida Como Ela É) –, além de estudos, leituras dramatizadas, workshops e exposição. A Cia. Gattu apresentou uma versão de A Serpente e planeja montar Viúva porém Honesta, Doroteia e Boca de Ouro. A Cia. Nova Dança 4 mostrou O Beijo, trabalho dirigido por Christiane Paoli-Quito, com coreografia inspirada em O Beijo no Asfalto. Houve ainda a exposição Nelson Brasil Rodrigues - 100 Anos do Anjo Pornográfico, no Teatro Glauce Rocha. Nelson e Crica Rodrigues foram convidados pela Funarte para assumir a curadoria da exposição, que contou matérias de jornal, programas das peças, críticas e fotos. No decorrer das décadas, o público assistiu a diversos trabalhos emblemáticos realizados a partir da obra de Nelson Rodrigues. No teatro, Antunes Filho potencializou a escrita de Nelson por meio de espetáculos como Paraíso Zona Norte e Nelson Rodrigues, o Eterno Retorno. Ziembinski retornou a Nelson em Toda Nudez será Castigada, com Cleyde Yáconis. Não se pode esquecer, mais recentemente, da contribuição do Núcleo Carioca de Teatro, grupo conduzido por Luiz Arthur Nunes, especializado na encenação da obra não-dramatúrgica de Nelson. No cinema, Arnaldo Jabor traduziu com força o teor da obra em Toda Nudez será Castigada. E Leon Hirszman assinou uma versão polêmica de A Falecida, protagonizada por Fernanda Montenegro.
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