Bibi, espetáculo que reabriu as portas do Teatro Tereza Rachel (agora rebatizado de Theatro Net Rio), foi evidentemente concebido para homenagear Bibi Ferreira. Esta característica se sobrepõe a criações artísticas originais, menos ambicionadas nesse caso. Soberana no palco, Bibi reedita números que já apresentou nos shows intitulados Bibi in Concert. Voltam a aparecer, por exemplo, as espirituosas brincadeiras com óperas preenchidas com letras de notáveis sambas brasileiros.

Bem-humorada, Bibi, acompanhada de orquestra, conversa com o público. Lembra do convívio com os pais – Procópio Ferreira, astro das primeiras décadas do século XX, e Aída – e de alguns de seus maiores sucessos – os musicais My Fair Lady, Hello, Dolly, O Homem de la Mancha, Gota D’Água (escrito pelo marido Paulo Pontes, em parceria com Chico Buarque, e apresentado no Teatro Tereza Rachel) e Piaf. Assume também os espetáculos que ainda gostaria de fazer. E evoca, bem mais discretamente, o vínculo com a fadista Amalia Rodrigues.

Mesmo que a proposta não seja original, o tributo a Bibi Ferreira é inegavelmente justo. Afinal, Bibi é uma artista que viveu a transição do chamado teatro antigo para o moderno. Na sua companhia, fundada em 1944, testemunhou a abolição de um modo de fazer teatro (simbolizado, entre outros fatores, pela extinção do ponto) e conviveu com as primeiras atrizes modernas – Cacilda Becker e Maria Della Costa, que estiveram, respectivamente, à frente do Teatro Brasileiro de Comedia (TBC) e do Teatro Popular de Arte (TPA), ambas companhias fundadas em 1948.

Uma das atrizes precursoras do teatro musical no Brasil, Bibi se notabilizou nos espetáculos de grande porte, tanto voltados para o repertorio estrangeiro quanto para o brasileiro (além dos já citados, Brasileiro: Profissão Esperança, de Paulo Pontes). Aprendeu técnicas de representar com Procópio, pertencente a uma época em que os atores costumavam aproximar os personagens de suas próprias personalidades, mas se mostrou capaz de construir presença cênica que não se reduz a um jogo pré-estabelecido orquestrado com eficiência. Bibi se revela viva no palco, capaz de reagir ao aqui/agora, ao instante da contracena (conforme se pode constatar, há poucos anos, na montagem de Às Favas com os Escrúpulos, comédia de costumes de Juca de Oliveira) e a eventuais interferências do público a cada apresentação.