Depois de 47 anos à frente do Théâtre du Soleil, a diretora Ariane Mnouchkine mantém o sentido de utopia. Foi o que a moveu na escolha de Os Náufragos de Jonathan, romance póstumo de Júlio Verne, que ganhou adaptação a cargo de Hélène Cixous, dramaturga da companhia há cerca de 30 anos. “A obra de Verne fala sobre uma proposta de sociedade melhor, solidária, com novas ideias e sentido de coletividade”, afirma a diretora. No caso do Soleil, a utopia parece ter se tornado realidade, a julgar pela sobrevivência de um grupo de grande porte que viaja pelo mundo.

Em Os Náufragos da Louca Esperança, as aventuras de um navio e seus passageiros – que parte de Cardiff, em 1895 –  são narradas através de um filme mudo, rodado em 1914 por uma equipe principiante, num cabaré à margem do rio Marne, transformado em estúdio amador. A encenação é estruturada em três planos narrativos: as recordações de um dos atores do filme, através da voz off de sua neta, pontuando tanto as circunstâncias que envolvem o que se passa no set quanto o pano de fundo político da Europa pré-guerra; a vida que pulsa no estúdio improvisado no cabaré à beira do Marne; e as legendas do filme, rodado da forma como seria apresentado nas salas de exibição – com os atores mexendo os lábios sem emitir sons e arregalando os olhos, como nos primórdios do cinema.

A inspiração no cinema mudo foi determinante durante o processo de encenação. “Vimos muitos filmes mudos. Os atores eram expressivos e verdadeiros – e não exatamente exagerados ou caricaturais”, afirma Mnouchkine. O cinema não serviu “apenas” de fonte de inspiração. A partir de Os Náufragos da Louca Esperança, os integrantes do Théâtre du Soleil estão realizando um filme, cuja proposta transcende a do teatro filmado, por melhor que seja. “Não é de hoje que pedíamos a Ariane para fazer um filme dentro da companhia. Mas precisávamos de dinheiro. Agora, estamos conseguindo viabilizar o projeto”, comemora Juliana Carneiro da Cunha, atriz brasileira que faz parte do Théâtre du Soleil desde o início da década de 90, quando entrou para interpretar Clitemnestra no mergulho na tragédia grega realizado em Os Átridas.

É a primeira vez que o Soleil desembarcou no Rio de Janeiro. Os Efêmeros, espetáculo da companhia, foi apresentado no festival Porto Alegre em Cena e em São Paulo. Sediada na Cartoucherie de Vincennes, antiga fábrica de munição do exército francês localizada nos arredores de Paris, a companhia reúne algumas características determinantes, perpetuadas nos espetáculos mostrados ao longo das últimas décadas. Vale mencionar a conexão com o teatro oriental através do trabalho com máscaras balinesas. “A máscara é indispensável. É a base para entender o que significa atuar, se transformar em outro. O ator deve se tornar a máscara que colocou sobre o rosto. Precisa se doar completamente à máscara. O teatro oriental é fundamental no meu trabalho. No caso de Os Náufragos da Louca Esperança, não buscamos uma conexão direta, como em Tambores sobre o Dique, quando celebramos o teatro chinês e o japonês. Mas, de algum modo, está presente”, assinala. Juliana Carneiro da Cunha lembra com exatidão de Tambores... “Antes do começo dos ensaios, viajamos para a Coreia, o Vietnã”, evoca Juliana, atriz que voltou a atuar no Brasil na primeira década do século XXI, tanto no cinema (Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, O Veneno da Madrugada, de Ruy Guerra) quanto na televisão (Hoje é Dia de Maria, novamente sob a condução de Carvalho).

De certo modo, Mnouchkine chegou à arte oriental através do vínculo com as plataformas do teatro desenvolvido por Meyerhold, que defendeu a retomada de um elo com formas teatrais do passado. “Quando jovem, fui norteada por manifestações como a commedia dell’arte e o kabuki”, cita, referindo-se, respectivamente, à forma de teatro popular italiano, quando os atores improvisavam a partir de textos e se especializavam em personagens específicos e à tradicional manifestação teatral japonesa. Também cabe mencionar o destaque à improvisação dentro do grupo para que os atores, antes de definirem personagens e decorarem o texto, recuperem a liberdade de crianças brincando em terrenos baldios. “Não gosto que os atores decorem logo o texto. Devem sentir o que dizem, vivenciar o prazer da descoberta. Às vezes, é difícil conquistar a liberdade quando se perdeu porque já não se acredita nela”, observa.

Em Os Náufragos da Louca Esperança, montagem que estreou em Paris em fevereiro de 2010, Ariane Mnouchkine segue trabalhando com parceiros de longa data. São os casos do músico e compositor Jean-Jacques Lemêtre, que executa trilha sonora original ao vivo, e da já citada dramaturga Hélène Cixous, presente mesmo nas encenações realizadas a partir de textos fechados. “Hélène assiste aos ensaios, reescreve o texto, retorna com propostas diferentes. Sempre antes da entrada do público nós nos reunimos para ouvir Ariane e lermos algo. Aos domingos, Hélène costuma falar conosco”, conta Juliana, a respeito de Hélène Cixous, que, no processo de adaptação da novela de Verne, encontrou inspiração em Mundo de Ontem – Recordações de um Europeu, de Stefan Zweig.