| Fundador do Teatro de Arena, José Renato falece aos 85 anos pouco depois de uma apresentação de 12 homens e uma sentença, montagem da qual integrava o elenco Aos 85 anos, José Renato Pécora estava recomeçando. Depois de mais de meio século sem atuar, aceitou o convite do diretor Eduardo Tolentino de Araujo para integrar o elenco de 12 homens e uma sentença, de Reginald Rose (adaptado para o cinema por Sidney Lumet), montagem em cartaz no Teatro Imprensa, em São Paulo. Sob o signo da mudança, o fundador do Teatro de Arena morreu na madrugada de 2 de maio, em decorrência de um enfarte, quase em cena, pouco após o espetáculo. - José Renato vinha se aproximando do Grupo Tapa há bastante tempo – afirma Tolentino. – Conversando com Zecarlos Machado, decidi convidá-lo para fazer 12 homens e uma sentença. Ele se surpreendeu e disse que não atuava há 56 anos. Foi um belíssimo fechar de cortinas. Na encenação, José Renato interpretava o jurado nº 9, generoso professor aposentado, um dos 12 encarregados de julgar um rapaz, acusado do assassinato do próprio pai. - Ontem ele cometeu um ato falho durante a apresentação – destaca Tolentino. – Ao invés de dizer “o velho só queria um pouco mais de atenção”, falou “o velho só queria um pouco mais de tempo”. De acordo com Tolentino, a ótima receptividade em torno do trabalho de José Renato estava propiciando uma aproximação com as gerações mais jovens, normalmente pouco informadas sobre a história do teatro brasileiro. - O personagem dele tinha empatia com o público – confirma. – Além disso, sentia prazer de entrar em contato com uma turma de atores que conhecia pouco. Colega de elenco, Oswaldo Mendes, em nota divulgada ontem, sublinhou a disponibilidade de José Renato. - O sucesso de 12 homens e uma sentença é, especialmente, o sucesso dele que, por ter feito a sua trajetória no teatro como diretor, desde que criou o Arena, não havia provado o reconhecimento das plateias, em especial dos jovens que assistem ao espetáculo - constata. - Reconhecimento que agora experimentou com uma alegria juvenil que nós testemunhamos nesses sete meses de temporada. O Teatro de Arena, fundado por José Renato, foi um marco na história do teatro brasileiro. Surgiu em 1953, com a montagem de Esta noite é nossa, de Stafford Dickens, apresentada no MASP. Ainda como aluno da Escola de Arte Dramática (EAD), José Renato propôs o formato da arena, uma configuração espacial que favorece a proximidade entre palco e plateia e determina um modo de fazer teatro mais econômico. Entre as propostas principais do Arena, a valorização de uma dramaturgia brasileira voltada para a realidade do homem comum. O principal marco do Teatro de Arena foi a encenação, em 1958, de Eles não usam black-tie, peça de Gianfrancesco Guarnieri centrada no cotidiano de uma família operária desestabilizada a partir das divergências entre pai e filho em torno de uma greve na fábrica onde trabalham. A montagem revelou a atriz Lelia Abramo, que estreava profissionalmente nos palcos brasileiros, aos 47 anos, depois de passar pelos grupos amadores italianos. José Renato conviveu, no Arena, com Guarnieri, Augusto Boal, que trouxe a experiência adquirida em cursos nos Estados Unidos (principalmente em relação à difusão do método de Stanislavski), Oduvaldo Vianna Filho, Milton Gonçalves, Flavio Migliaccio, Riva Nimitz, Henrique Cesar e Vera Gertel. Isabel Teixeira e Cibele Forjaz, ao ocuparem, a convite da Funarte, o Teatro de Arena, em 2005, organizaram uma sucessão de eventos comemorativos dos 50 anos do Arena (considerando a inauguração da sede, na Rua Teodoro Baima, em 1955). Cibele dirigiu a montagem de Arena conta Danton; Isabel tomou a frente do projeto Arena conta Arena, no qual reuniu depoimentos dos remanescentes da companhia. - Fiz toda a catalogação, um banco de dados sobre o Arena, compilada num CDRom, graças ao apoio da Petrobras, que também ajudou na realização de uma exposição – conta a atriz Isabel Teixeira. Isabel realizou ainda um documentário, exibido durante a exposição, no Instituto Tomie Ohtake, em 2005, e um outro, veiculado ano passado na TV Cultura, concretizado em parceria com o diretor Sérgio Roizenblit. - Durante a pesquisa descobri coisas ótimas – conta Isabel. – O pessoal do Arena fez Uma mulher e três palhaços no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, a convite do então presidente Café Filho. Nos últimos tempos, Isabel pediu a José Renato um depoimento a respeito da atriz Margarida Rey, sobre quem está escrevendo uma biografia. - Os e-mails que trocava comigo pareciam de alguém bastante jovem – diz. José Renato conjugava jovialidade com experiência. Além do vínculo com o Arena, fez estágio no Théâtre National Populaire (TNP), de Jean Vilar, dirigiu o Teatro Nacional de Comédia (TNC) e fundou o Teatro de Bolso, em Curitiba. - Sempre me preocupei em criar uma ponte com o passado porque este elo foi interrompido em decorrência da ditadura – afirma a diretora Cibele Forjaz. |