Miguel Falabella descortina a hipocrisia social em A Escola do Escândalo, texto de Richard Brinsley Sheridan, autor pouco conhecido no Brasil

Conhecido por não medir esforços para viabilizar seus projetos, Miguel Falabella finalmente concretiza um plano antigo: a encenação de A Escola do Escândalo, texto de Richard Brinsley Sheridan, autor irlandês da passagem do século XVIII para o XIX, desconhecido no Brasil. Para tanto, Falabella, também responsável pela tradução e adaptação da peça, partiu para a produção, juntamente com Maria Padilha e Ney Latorraca, que integram o elenco de dez atores, uma ousadia para os padrões atuais. Apesar do contexto distante, a história, que descortina a hipocrisia da aristocracia, se mantém atual. Não por acaso, a cenografia de Lia Renha traz entre seus elementos três espelhos de 3m de altura por 1,2m de largura, que refletem a imagem da plateia, incluindo-a na cena. A conexão entre passado e presente também norteia os figurinos de Emília Duncan. “É como se concordássemos que somos abomináveis e, mesmo assim, ríssemos disto”, diz Miguel Falabella. O humor, de fato, prevalece. Basta conferir a galeria de personagens revelada por Sheridan. O rabugento comendador Pedro Atiça (Latorraca) vive às turras com a mulher Rosália (Padilha), que, habituada ao dia a dia no campo, se deslumbra com as delícias da vida fútil na alta sociedade. Guardião legal da sobrinha, a boa e casta Maria (Bianca Comparato), ele se vê enredado numa trama envolvendo a disputa pela mão da menina. Movidos por interesses escusos, José Fachada (Bruno Garcia) e Dona Benferina (Rita Elmôr) fazem de tudo para arruinar com a reputação do rapaz que Maria ama – o irmão de José, Carlos Fachada (Armando Babaioff). Para tanto, contam com as ajudas de Benjamin Mordessopra (Edi Botelho) e de Cândida (Jacqueline Laurence). Mas os planos da dupla sofrem uma reviravolta quando Olívia (Guida Vianna), tia dos Fachada, é alertada por Barata (Chico Tenreiro) e toma pé das tramoias do sobrinho.

Fale sobre sua ligação com o teatro de Richard Brinsley Sheridan:
Sempre adorei Sheridan. Li seus textos quando cursava a faculdade de letras (português/inglês). Mas achava impossível encená-los. De fato, são. Levei tempo para reunir coragem para mexer numa obra dele.

Como você adaptou a peça?
Cortei atos, fundi vários personagens. Mas tomei o devido cuidado para manter vivo o espírito de Sheridan, a maledicência contida nos diálogos.

O encontro com a dramaturgia de Sheridan o reaproximou da palavra?
Vejo hoje como a palavra se perdeu. E como é interessante redescobri-la quando bem dita, numa peça divertida e de moral subversiva.

É verdade que você planeja montar A Escola do Escândalo desde a primeira metade da década de 90, quando participou da encenação de Mephisto no Teatro dos Quatro?
Sim. Falei com Mimina (Roveda, uma das sócias do Teatro dos Quatro), na época. Na verdade, penso em Sheridan desde que montei Emily (monólogo que dirigiu, sobre a escritora Emily Dickinson, com Beatriz Segall). Mas acho que estou levantando A Escola do Escândalo na hora certa. Talvez antes acabasse adotando uma postura muito reverente em relação ao texto.

O que mais o atrai entre as características do século XVIII, época em que a história de A Escola do Escândalo é ambientada?
As pessoas preferiam ir ao hospício ver os loucos do que ao teatro. O século XVIII é o período do desvario. Ao mesmo tempo, o texto se mantém atual. Não por acaso, coloquei espelhos ao fundo do cenário: possibilitam acompanhar a cena a partir de diferentes angulações e também funcionam como um mecanismo de inclusão da plateia, que se vê refletida. É como se concordássemos que somos abomináveis e, mesmo assim, ríssemos disto.

Como a montagem de A Escola do Escândalo se insere na sua carreira como diretor?
Não dá para dirigir um texto como A Escola do Escândalo sem assinar a montagem, sem tomar um partido. Como considero adoráveis os vilões, pedi à Bianca Comparato para interpretar com fervor religioso – como uma jovem atriz inglesa, na linha de Kate Winslet – uma personagem que simboliza o que restou de pureza. Nos últimos anos, venho dirigindo musicais, que são meio franchising, meio pizza. Gostei de ver Edson (Celulari) chegar àquele resultado em Hairspray, mas foi uma brincadeira. Agoro quero brincar de outra coisa. O teatro sempre teve as portas abertas para mim. Ainda planejo fazer uma revista com o luxo e a opulência de Walter Pinto. E trazer de volta a revista política.