Em 2011 a telenovela brasileira completa 60 anos. A data é importante para o reconhecimento da importância de Daniel Filho para a sua história.

“Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso, apresentada pela TV Tupi em 1968/69 é o marco da  renovação  na trajetória da telenovela, mas a revolução mais abrangente aconteceu quando Daniel Filho comandou o departamento de novelas da TV Globo a partir dos fins de 1969. Podemos até dividir a história da telenovela em antes e depois de Daniel Filho.

O cotidiano brasileiro instaurou-se na dramaturgia, um requinte de produção passou a ser exigido como nunca tinha sido, e uma audiência avassaladora atingiu todos os níveis sociais e intelectuais da população brasileira, transformando a telenovela numa instituição nacional.

Em 1967, Daniel foi convidado por Boni para dirigir “A Rainha Louca”, de Glória Magadan, enfrentando alguns desafios: substituir Ziembinski na direção, enfrentar as sugestões de Nathalia Timberg, que protagonizava a novela, e ficar subordinado às ordens de Glória Magadan, diretora do departamento.

“A Rainha Louca” foi a novela de maior audiência daquele ano no Rio de Janeiro. As novelas de Magadan, sempre com seus reis e imperadores de países distantes, alcançavam boa audiência no Rio de Janeiro e em algumas capitais, mas eram pouco vistas em São Paulo. Dois anos depois, com a saída de Magadan, Daniel assumiu  o comando das novelas e deu início a uma profunda e rápida revolução na história da telenovela. Intensificou sua química com Janete Clair, com quem trabalhara em “Sangue e Areia”, “Acorrentados”, “Passo dos Ventos” e “Rosa Rebelde”. Trouxe Regina Duarte de São Paulo para estrelar “Véu de Noiva”, novela que simboliza essa mudança, primeiro emblema de “novela das oito”. Pouco depois estréia “Verão Vermelho”, de Dias Gomes, com Dina Sfat e Jardel Filho, às 10 da noite .Com isso a TV Globo passou a apresentar as novelas mais modernas da televisão, passando a liderar a audiência também em São Paulo.

A revolução se consolida nas novelas seguintes: “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, às 8 da noite, com Tarcísio Meira e Glória Menezes, estrondoso sucesso, “Assim na Terra Como no Céu”, de Dias Gomes, trazendo para a TV Globo Francisco Cuoco, o maior nome da TV Excelsior, às 10 da noite e “Pigmalião 70”, de Vicente Sesso, com Sérgio Cardoso e Tônia Carrero, às 7 da noite, novelas que asseguraram uma liderança nacional à TV Globo, nunca perdida até hoje.

Daniel ampliou sua inquietude e criatividade nos três horários de novelas. As novelas de grande impacto popular da maga Janete Clair( “Selva de Pedra” foi a única novela que deu 100% de share num determinado capítulo) alternavam-se com os dramas sócio-políticos de Lauro César Muniz, permitindo ao público saborear obras de  grande inventividade e requinte dramatúrgico como “Escalada”, “O Casarão” e “Espelho Mágico”, às 8 da noite. Com Dias Gomes, autor das grandes “Bandeira 2”, “O Bem Amado” e “Saramandaia” , revezavam-se Bráulio Pedroso, autor de ousadias como “O Cafona”, O Bofe” e “O Rebu”, e Jorge Andrade, prestigiado no teatro, trouxe seu talento com “Os Ossos do Barão” e “O Grito”. Às sete da noite, o humor delicado e cor de rosa de “O Primeiro Amor”, de Walther Negrão, “Uma Rosa com Amor”, de Vicente Sesso e “Carinhoso”, de Lauro César Muniz, também pararam o país.

Durante esse período Daniel Filho, como mentor das novelas, foi o grande empreendedor, que transformou a novela no maior produto cultural do Brasil. Uma indústria que absorve os melhores e mais competentes profissionais e ampliou significativamente o mercado de trabalho e dignificando para sempre a profissão do artista brasileiro.

Nos 60 anos da telenovela brasileira, Daniel Filho merece o reconhecimento e os aplausos – de pé. Bravo, Daniel!