Deborah Colker aprofunda vínculo com dramaturgia e personagens em sua nova criação, Tatyana

Tatyana surge na carreira de Deborah Colker como o desenvolvimento de determinadas características que já podiam ser percebidas em outros espetáculos. Nesse novo trabalho, Colker aprofunda seu elo com personagens a partir de um mergulho no romance em versos de Alexandr Pushkin, Eugênio Oneguin, publicado no início da década de 1830 e centrado na relação passional entre Oniéguin e Tatyana. O vínculo com a dramaturgia não é inédito no percurso de Colker. Muito pelo contrário. Afinal, fez direção de movimento para diversas montagens de diretores como Antonio Abujamra, Ulysses Cruz, Moacyr Góes e João Falcão. Encarou o desafio de contar histórias através da dança em empreitadas como Ovo, criação para o Cirque du Soleil. E vem apostando, ao longo do tempo, em intersecções entre a dança e outras manifestações artísticas. Mas tudo isso não significa que Tatyana, uma das principais atrações da última edição do Festival de Curitiba, não traga novidades. Elas podem ser conferidas pelo público, a partir de setembro, no Teatro Alfa, em São Paulo.

Como você transportou o romance Eugênio Oneguin, de Alexandr Pushkin, para a linguagem da dança?
A pergunta que não quer calar é: por que resolvi contar uma história? Tudo começou em , em que abordei o espaço como lugar do desejo. A pesquisa me levou até Cruel, um espetáculo que quase trazia uma história. Mas ainda não estava na hora. Até que me apaixonei pela ópera de Tchaikovsky e cheguei à origem – o romance em versos de Pushkin. Eu me interessei pelos personagens, mas não fiz de Tatyana um espetáculo narrativo. Centrei em cinco personagens: Oneguin, Lensky, Tatyana, Olga – os quatro protagonistas do romance – e o próprio Pushkin, que interfere bastante na condução da história. No primeiro ato apresento os personagens. Oneguin, Tatyana e Olga são interpretados por quatro bailarinos cada; Lensky, por três; e um faz Pushkin. Eu também danço. É como se encarnasse a figura do criador. O segundo ato é minimalista, com cenário quase invisível.

Em que aspectos você percebe a atualidade dessa obra do século XIX?
Pushkin fala sobre a impossibilidade do amor, da felicidade. Revela entendimento sobre o indivíduo, a alma. A vida nos ensina a adquirir valores, mas é terrível. Não quis fazer um espetáculo datado. Invisto apenas numa localização musical. Trabalhei com compositores russos. Fui muito direcionada por Rachmaninoff.

Trabalhar com texto não é algo novo para você, que já fez muitas direções de movimento para montagens teatrais...
Firmei parceria com diretores como Ulysses Cruz, Antonio Abujamra, Aderbal Freire-Filho, Moacyr Góes, Karen Acioly. Procurava entender as personagens para ajudar os atores a construir um corpo, uma dramaturgia física. Trabalhei com atores como Juca de Oliveira e Vera Fischer, portadores de corpos bem diferentes.

Fale sobre a sua parceria com um diretor com tanta personalidade como Antonio Abujamra em montagens como Um Certo Hamlet, Phaedra e A Serpente:
Abujamra me deixava sozinha com os atores, em alguns momentos, e dizia para desenvolver determinadas cenas. Ele me ensinou a síntese, a colocar o necessário. Questionava a beleza. Até que ponto estava dialogando com o que a cena pedia? Ele me colocou desafios: como materializar um jantar sem mesa e cadeiras, um jantar não literal? Como contar nas entrelinhas as tensões da cena? Em O Retrato de Gertrude Stein quando Homem, ele estava em cena. Dizia que não me obedeceria. Mas acabou obedecendo.

Em Cruel, você também trabalhou a partir de texto – no caso, de Fausto Fawcett, não?
O texto de Fausto fez parte do processo de criação, mas não “apareceu” propriamente em cena. Foi uma influência, claro, para um espetáculo que lançava um olhar cruel sobre o amor, a vida. Às vezes influenciados por mim, os artistas traziam suas histórias, ainda que não se tratasse de um espetáculo biográfico.  

Como foi a experiência de dirigir Ovo para o Cirque du Soleil?
Eu me propus o desafio de contar uma história de minha autoria dentro de um formato de espetáculo programado para permanecer muitos anos em cartaz. Já que precisaria contar uma história seria fundamental que todos entendessem. Foi ótimo Ovo ter precedido Tatyana, que traz, ao mesmo tempo, uma história simples e complexa sobre o amadurecer, o fim da juventude, a morte. Questões que estão sempre conosco.

Como você analisa a fusão entre diferentes linguagens artísticas a partir da conexão entre dança e artes plásticas em 4X4 e entre dança e literatura em Tatyana?
As misturas são enriquecedoras. Não é uma opinião teórica. Meus amigos são músicos, fotógrafos, artistas plásticos. A mistura está na vida. Eu me inspiro em exposições, filmes. São filtros naturais. Para Tatyana, Oneguin (1999), filme de Martha Fiennes, com Ralph Fiennes, foi determinante. Também contei com um consultor literário, Irineu Perpetuo. Mas o meu trabalho é de dança. Acredito que cada manifestação artística tenha regras diferentes. Um espetáculo de dança contemporânea possui mandamentos. Você pode, claro, subvertê-los. Mas é preciso criar outra ordem. Por que um bailarino precisa dançar num palco horizontal? Propus, então, um vertical.