Especial para o Jornal do Commercio

Camilla Amado exercita, no momento atual, sua versatilidade. Como diretora, retomou, ao lado de Delson Antunes, contato com A lição e A cantora careca (textos de Eugene Ionesco que fez como atriz em 1957 e em 1982, sob a direção de Luís de Lima), em montagem atualmente em cartaz no Teatro Maison de France. Como atriz, pode ser vista no palco do Teatro Clara Nunes em O pacto das três meninas, encenação assinada por Ernesto Piccolo.

“Ionesco é atual porque vivemos numa época massificada na qual o sujeito não tem vez. Somos constituídos por desejo e falta. O capitalismo vende a ilusão de que a angústia da vida pode ser preenchida com consumo. Outra ilusão é a de que a falta poderá ser resolvida através da erudição. O professor de A lição se entope de erudição e a falta dele permanece a ponto de querer matar a aluna. A cantora careca mostra a resultante dos que aceitaram a massificação”, explica Camilla Amado.

Em A lição, uma aluna procura um experiente professor de aulas particulares, que domina todos os assuntos. No processo de aprendizagem, vêm à tona as relações de poder, a busca pelo conhecimento, a ignorância, as fantasias secretas, o problema universal da falha na comunicação e a caricatura do real. A cantora careca começa com um diálogo sobre banalidades do cotidiano entre os donos da casa, Sr. e Sra. Smith, numa sala de jantar burguesa, logo depois de terminarem a refeição. O diálogo entre o casal evolui através de falas sem um nexo compreensível, quando são interrompidos por Mary, a empregada, anunciando a visita do Sr. e Sra. Martin para jantar.

No elenco, antigos parceiros de trabalho, como Nelson Xavier, com quem Camilla Amado trabalhou no Teatro de Arena (substituiu Vera Gertel na histórica montagem de Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri) e no Grupo Opinião. Camilla também esteve em peças de Nelson, como O segredo do velho mudo, dirigida por Cecil Thiré, e Trivial simples, conduzida por Ruy Guerra. Ainda em cena estão Cecil Thiré, Thelma Reston, Renata Paschoal (idealizadora do projeto), Maria Gladys e Roberto Frota

Já em O pacto das três meninas, Camilla Amado envereda pelo humor de Rosane Svartman e Lulu Silva Telles ao lado de Rosamaria Murtinho e Marly Bueno. Na peça, as atrizes interpretam senhoras que resolvem realizar todas as transgressões que nunca se permitiram dar vazão ao longo do tempo. “Eu queria trabalhar com Ernesto Piccolo e com Laura Cardoso, que, com mais de 80 anos, come linguiça com batata frita na Fiorentina. Laura acabou se desligando do espetáculo por causa de compromissos na televisão. Entrou Marly, que também come linguiça com batata frita”, conta Camilla, que já tinha trabalhado com Rosamaria em Exposição de 1935, de Maria Inês Barros de Almeida, e com outro colega de elenco, Lafayette Galvão, em As desgraças de uma criança, de Martins Pena, montagem de muito sucesso na década de 70.

Parcerias profissionais duradouras vêm sendo constantes na carreira de Camilla Amado, que, em breve, deverá participar de nova montagem de Um elefante no caos, de Millor Fernandes, texto que fez em 1959, dirigida por João Bethencourt. Trabalhou bastante com Antonio Pedro – em A exceção e a regra, de Bertolt Brecht, no já citado As desgraças de uma criança e em Tá ruço no açougue, inspirado no Brecht de Santa Joana dos matadouros. Foi dirigida por Ziembinski numa montagem de Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, em 1976. E por Alberto D’Aversa em Anjo de pedra, no espetáculo do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), companhia que tinha Cacilda Becker como estrela. “Conheci Cacilda quando fui ver Pega-Fogo. Acabou a apresentação e fiquei quieta no teatro. Ao sair, a porta do camarim dela estava entreaberta e me chamou. Pediu para segurar o éter enquanto tirava o esparadrapo que cobria seus seios, já que fazia um menino na peça. Sua pele estava em carne viva. Depois fiquei amiga dela. E do Walmor (Chagas), também. Eles tinham um teatro em casa, no apartamento da Avenida Paulista”, lembra.