EVA TODOR

AULA INAUGURAL DO 1º SEMESTRE LETIVO DE 2011

Comecei com quatro anos na Ópera Real da Hungria, fazendo balé. Com oito anos eu vim para o Brasil e fui matriculada no Theatro Municipal na Escola Maria Olenewa. Não falava nada de português, só húngaro, e ninguém que eu conhecia falava húngaro. Então, foi uma dificuldade.

Mas as coisas correram e com 14 anos eu tive a felicidade de um jornalista chamado Mário Nunes me levar para o Teatro Recreio. Eu já trazia um repertório de balé muito grande da Hungria, e essa bagagem.

Depois disso eu fui chamada para fazer teatro. Teatro ensinam, mas português que é bom, nada. Fui reprovada. Voltei para a escola da Maria Olenewa chorando. Claro, ninguém entendia húngaro.

Mas mesmo assim eu sobrevivi. Fiquei um tempo lá, dos 14 até os 20 anos, fazendo revista no Teatro Recreio. Não era uma revista pornográfica, mas uma espécie de burleta, peças de princípio, meio e fim, com enredo. Não predominava o nu. Era mais família.

Com 14 anos o diretor da companhia arrastou as asas para o meu lado. Chamava-se Luiz Iglesias, com quem eu me casei com 14 anos. Fiquei casada 28 anos, até que ele faleceu. Depois de falecido esperei dois anos de luto fechado. Aí o meu pai disse: “o que é que você está pensando? Você pensa que é Cleópatra? Que você vai viver assim? Não. Eu e sua mãe vamos morrer e você vai ficar sozinha”. Dito e feito. Aí eu já tinha um amigo meu, que me arrastava as asas, o meu pai sabia e dizia: “O que você espera? Um príncipe encantado? Tem um rapaz que quer casar com você, e que não precisa de você para nada, porque tudo o que ele tem é o suficiente para viver, e quer casar assim mesmo. O que você pensa? Então, você vai casar. Ele gosta muito de você.” E praticamente me obrigou a casar. Casei. Com esse segundo marido fiquei casada 25 anos.

Quando eu estava muito bem na revista, o meu marido, diretor, achou que o gênero revista não tinha mais vez no Brasil. Naquela época não tinha. Enveredou um pouco para o nu, mas mesmo assim era um gênero bonito e variado. Ele resolveu me tirar de lá, e montar uma companhia de comédia. Disseram que ele estava louco. Diziam: “você vai fazer uma companhia de comédia com uma menina que mal fala o português. O quê você está esperando?” Mas ele insistiu, contratou um diretor, português por sinal, e eu tive que aprender a falar o português a força, inclusive com sotaque. Ele dizia, “ó menina, faz isso diferente, e eu virava de frente”, e ele dizia “não, diferente”. Mas eu sobrevivi bela e fresca.

A vida me parece até hoje muito boa. Eu tive uma vida muito boa, graças a Deus! Sem tropeço, sem maiores empecilhos.

Uma das coisas marcantes da minha carreira foi justamente passar do gênero musical para a comédia. Mas tive tanta sorte que agradei na primeira peça, chamada Feia. Descobriram que eu tinha uma veia cômica muito grande.

O meu primeiro marido percebeu que eu tinha sem querer uma veia cômica. É algo que nasce com a pessoa. Ninguém é cômico porque quer. Ninguém faz graça porque quer. E não adianta querer fazer graça porque não dá. Existe uma coisa qualquer que é fundamental. Primeiro é o que a gente diz espontaneamente. Depois é o tempo de comédia.

A novela que está no ar agora (Cordel Encantado). Eu não posso fazer esta novela. Imagina se eu vou montar a cavalo.

Meu marido, então, pegou muita peça húngara que eu ajudei a traduzir. As peças húngaras têm muito humor.  Ele pegava, montava com a nossa companhia e alcançava um sucesso imenso. Ele resolveu batizar a companhia de Eva e Seus Artistas. Só no Teatro Serrador eu permaneci 23 anos consecutivos, de janeiro a dezembro. Eu não pude nem viajar. Fiquei 25 anos sem ir a São Paulo, uma cidade importante para qualquer carreira.

Atriz é uma profissão maravilhosa, difícil, complicada, cheia de tropeços,  improvisos, mas é gratificante. Agora, uma coisa: não se iludam, precisam ter, antes de mais nada, carisma, uma coisa espontânea, que nasce com a pessoa, que não se aprende. Ser atriz é uma coisa que vem de Deus. E precisa ter sorte. Se os deuses sorrirem na hora que você estrear, você está feita, se não, não adianta insistir. Mas estudem porque dá certo.

Televisão é uma margem enorme. Aí, sim, entra o fator sorte. É cavar, saber, perguntar, mostrar o seu trabalho, porque um dia vai surgir. É questão de tempo. Você estuda muitas vezes para ser advogado, forma-se, e não tem emprego.

Antigamente uma peça durava seis meses, um ano em cartaz. Havia temporadas enormes em cada teatro. Agora não, o teatro só é alugado por três meses. Os espetáculos são apresentados às quintas e sextas, aos sábados e domingos. Isto no máximo porque geralmente é sexta, sábado e domingo. Outra coisa importante é diversificar o gênero. Os musicais estão bem fortes na praça. Vocês têm que aprender a ler, interpretar, sentir, improvisar, comprar um livro de sinônimos, sabe para quê? Porque se no texto você errar já sabe o sinônimo que substitui, e não empaca, improvisa dentro daquilo que precisa.

O “gênero Eva” surgiu naturalmente. Está ligado à improvisação, ao imediatismo, ao carisma, à simpatia. A minha grande sorte grande durante esses longos anos de carreira foi nunca ter insistido na meia idade, quer dizer, mulher de 40 anos que namora jovem, e dá beijos. Com quarenta e poucos anos eu comecei a fazer as velhas de 70 anos. Agora, imprimi o gênero desde os 18 anos. É melhor ser uma atriz simpática e criar um gênero só dela do que ser uma grande atriz. Grande atriz não serve de nada, só quando você pega um papel e transforma aquilo. O que eu faria na vida real com isso? Aí você pensa no que  faria na vida real. Age como você agiria na vida real. Comicidade exige um macete difícil de explicar. O texto tem que ser sincopado. Você já estuda o texto olhando o que é engraçado e de que maneira pode valorizar aquilo com senso de humor. O gênero Eva procura o lado engraçado das coisas sérias.

Eu viajei muito. Levei a minha companhia, que era constituída de 11 atores, mais quatro secretários e todo material de 27 peças montadas com cenários e guarda-roupas. Eu viajei para Portugal, fiquei 11 meses na primeira vez e nove na segunda. Na terceira, 2 anos e meio em Portugal. E depois disso ainda viajei oito meses pela África portuguesa. Foi um sucesso enorme. Inclusive, se não me engano, a minha companhia foi a primeira brasileira a fazer sucesso na Somália. O meu marido, que era sábio, torcia as peças para mim. Quer dizer: ele me dava de bandeja. Na bilheteria, às vezes perguntavam: “mas a peça é “gênero Eva”?” Se a bilheteira dissesse “não”, o espectador reagia: “ah! Então, até logo!”.

Hoje em dia perguntam: porque você deixou de fazer teatro? Eu não aguento fazer teatro e televisão juntos.  

Fiquei 23 anos no Teatro Serrador com o mesmo elenco. Então todas aquelas pessoas eram como uma família. Porque acabou? Porque morreram todos. Quase todos. Tinha um contratado meu que era o Jorge Dória. Na minha época não tinha patrocínio nem para ir a Portugal, nem para ir a África. É por isso que eu digo: além daquilo que você constrói, precisa de 90% de sorte. Mas não desanimem porque, em compensação, hoje tem muito mais margem de trabalho em todos os setores. Antigamente havia cinco, seis companhias e mais nada. Agora não, tem muitas, mesmo que seja experimental, que dure só três meses, não importa, há mais chance. Não é fácil, mas também não é impossível.

Durante todos esses anos, eu intercalei. Fiz peças sérias, como “Cândida”, de Bernard Shaw, “A Mulher Livre”, “A Milionária”, “A Carta” (Bette Davis fez com trinta e tantos anos e eu fiz com 20). O público não gostava da má. Preferia o “gênero Eva”. Às vezes, eu até torcia. Fiz uma peça que eu considero o meu maior trabalho: “O Efeito dos Raios Gama sobre as Margaridas do Campo”. Adorei fazer essa peça. Era uma mulher má. Sérgio Britto, que é um diretor maravilhoso, escreveu no livro dele: “ah, mas ela distorceu”. Se eu não distorcesse não teria agradado. E a peça não é um drama, uma coisa fechada. Tem humor negro.

Há uma confusão entre comediante e cômico. Cômico não é comediante, comediante não faz comicidade. A graça vem de uma coisa mais fina e o cômico é bufo, palhaçada, um gênero sem medida, sem pensar naquilo que possa ser ridículo ou não. Antigamente o teatro inglês é que fazia um teatro muito firme e cômico. Havia atores que faziam comédia tranquilamente, sem fazer besteira. E hoje em dia há de tudo no nosso teatro.

Eu prefiro a comédia. Infelizmente, a televisão está enveredando para um gênero que só tem maldade, muita safadeza. Não dá exemplo de nada.

Meu marido (Luiz Iglezias) fez uma marchinha de carnaval para mim em 1935. Ele fez uma peça chamada “Eva Querida” e inventou essa marchinha. Realmente a letra é muito boa, significativa. Você sabe a letra?

Eva querida
Quero ser o teu Adão
Dar-te-ei o meu amor
A minha vida
Em troca do teu coração

Hei de conquistar
O teu amor, se Deus quiser
Custe o que custar
Haja o que houver
Serei capaz de qualquer prejuízo
Mas te darei um paraíso.

Fiz tanta novela e tanta peça que eu sinceramente não sei qual personagem me marcou mais. Quando me perguntavam eu dizia:  “só gosto de peça e personagem quando a plateia está cheia. Se estiver vazia não gosto”. Eu trabalhei muito, lutei muito. Durante anos não tive férias. As pouquíssimas vezes que eu tive férias eu fui para a América, para a Europa. Conheci a Hungria, onde nasci. Voltei lá só uma vez. Conheci a Itália – Roma, Florença, Gênova.

Eu tenho a melhor impressão de gente jovem. Não é puxa-saquismo. É porque o jovem tem interesse em saber. É muito mais respeitoso do que antigamente. Inclusive o fato de vocês estudarem é muito importante. Eu não tive escola. Sou autodidata. Tive um professor, Eduardo Moreira, um português, que ficou vários comigo, me ensinando português.

Eu não tive problema com a censura porque o gênero que eu fazia, “gênero Eva”, não era absolutamente censurável. Mas sempre fiz passeata com os meus colegas para derrubar a censura. Tomei parte de tudo. Fui vaiada. 

Eu não entrava em cena antes de vomitar. Era nervoso. Tive isso durante toda a vida.

Eu tenho todos os prêmios que você pode imaginar de teatro e de cinema. Está tudo guardado: maior arrecadação de bilheteria, maior interpretação, maior direção. Isso tudo eu tenho. Agora um amigo meu quer fazer um museu de teatro. Eu já dei o meu acervo para ele. Ele está enlouquecido. Disse que não viu tanta coisa junta.

Eu estou no fim. Na minha concepção, estou no fim da linha.

Eu não estou querendo desistir de maneira alguma. Pretendo viver mais um tempo ainda, pois eu gosto de trabalhar. Desistir da carreira jamais. Eu trabalhei de segunda a domingo. Eu tenho uma carreira de setenta e tantos anos. Com isso eu já acabei de dizer a minha idade. Se vocês prometerem não dizer nada para ninguém, eu vou dizer: tenho 90 anos de idade.

 




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